A corrente foi passada

O projeto retratos:

Depois de desenvolver essa idéia abaixo, foi que O Cosmopolita resolveu registrar algumas situações com pessoas aleatórias e ilustrar com um retrato:

Quero sair por aí e olhar as pessoas sem julgar. Quero olhar no olho de cada um e enxergar nossas semelhanças, enxergar um semelhante. Olhar de igual pra igual. Olhar nos olhos e reconhecer que cada um tem suas qualidades. Quero estar sempre pronto para dar atenção devida para as pessoas. Vou sorrir para as pessoas sem esperar retorno. Até para as pessoas que são julgadas como as mais insignificantes. Afinal, insignificante de verdade é o orgulhoso, o vaidoso. Eu? Eu preciso aceitar que não sou melhor que ninguém. Vou distribuir afetos sem pedir nada em troca. Quero vencer o orgulho. Quero vencer a vaidade. Quero vencer meu ego e suas armadilhas.

Só quando eu chegar lá, vou voltar para casa. Minha guerra é interna.


Foi no dia que eu tirei as fotos desse post.

O Eduardo nos chamou do outro lado da rua. Já havia esquecido que no caminho de ida até a mesquita ele tinha falado que ia parar ali para comer na volta.

Atravesso a rua com a Thaís, entramos debaixo do barraco de lona e ele está sentado em uma daquelas camas indianas:

cama2.jpg

Esse tipo de cama de fio trançado é muito comum ver na Índia, principalmente nos barracos das pessoas que vivem na rua

Estava uma mulher e seus 2 filhos, Eduardo sentado comendo com um pratinho, assim que entrei com a Thaís, a mulher já abriu um sorriso, providenciou lugares para a gente sentar e humildemente, nos ofereceu comida.

A Thaís recusou com medo de pegar food poison (que de fato, é um grande risco para os estrangeiros quando não se sabe a procedência da comida), eu já fui na onda do Eduardo e resolvi correr o risco. Enquanto a mulher me servia, seu filho com um celularzinho, filmava tudo o que acontecia, eles adoram estrangeiros. Numa bobeada que ele deu, tomei o celular da mão dele e me filmei com ele fazendo tipo um selfie, tirando a maior onda com o moleque.

Comida servida, era chapati com molho de batata e outros vegetais, é tipo o arroz/feijão indiano:

chapati.jpg

Não estava como o da foto, mas estava delicioso, como uma boa comida caseira (vou fazer um post sobre comida indiana mais pra frente).

Chegou o marido dela e entre poucas palavras em comum em inglês e hindi, alguns gestos, tentamos estabelecer uma comunicação com aquela família. Apesar da barreira da comunicação, a mulher transbordou humildade e gentileza. Fomos muito bem recebidos naquele barraco à margem de uma rua movimentada do centro de Ahmedabad.

Se tem uma coisa que eu admiro no povo indiano é a disposição para ajudar o próximo e o jeito pacífico deles, ver alguém brigando na rua aqui é muito raro, conseguir ajuda aqui (principalmente sendo estrangeiro) é muito fácil. Essas qualidades do povo indiano me deixam além de intrigado e admirado, contagiado com o gesto e a vontade de retribuir a alguém. É uma corrente.

Depois que comemos, pedi para tirar uma foto daquela mulher linda e sorridente. Que atrás da lente de 50mm, inibiu levemente seu sorriso, escondendo os dentes mas seus olhos de jabuticaba denunciaram o brilho de quem tem pouco (ou quase nada), mas compartilha.

dsc_0172-2

Detalhe no teto baixo de lona

Lente 50mm Exposição: 1/400s Diafragma: f/2.5 ISO: 640

Apesar de todo o romantismo na descrição da situação, não ficamos nem 15 minutos ali. A cena foi rápida, mas marcante. Agradecemos e seguimos caminho, ainda tínhamos uns lugares que queríamos passar antes de ir pra casa. Estava corrido.

Evidentemente, eu senti a humlidade daquela familía, mas foi depois, no exercício de colocar essa vivência no papel, que senti não um dever mas uma motivação particular em repassar essa gentileza, esse ato de bondade. Gentileza gera gentileza, disse o profeta. A corrente foi passada. “You may say I´m a dreamer…” mas se reclamamos tanto desse mundo, do Brasil,  eu vejo que de pouco em pouco, de pessoa pra pessoa, de mão em mão, contagiando aqueles ao seu redor. Que se pode fazer desse mundo, um lugar melhor.

“Se todos dermos as mãos, quem sacará as armas?”

Robert Nesta

O Cosmopolita

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Um comentário sobre “A corrente foi passada

  1. Muito curioso e pitoresco este olhar que vem do outro lado do mundo. A gente quer acelerar a leitura, tal esfomeado que come depressa. Os bons textos costumam ser devorados. Bom sinal. O blog é ilustrativo e fluído, mas o que surpreende é a lucidez, a capacidade estampada de salientar o inusitado. De conseguir condensar e traduzir, o que é raro. A estrada é longa, mas o rumo está correto.

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