Como é trabalhar de noite na Índia

“Hey, night shift tomorrow, ok?!”

Foi o que meu superior me disse quando já estava saindo do trabalho naquela quinta às 21h. Ou seja, eu havia sido escalado para o turno noturno nos próximos dias úteis, já iria sacrificar a sexta a noite já que esse turno vai das 18h30 às 3h30 da madrugada. Isso acontece quando temos que aplicar pesquisas de mercado por telefone para os Estados Unidos e/ou países da América Latina devido a diferença de fuso-horário em relação à Índia.

Eu havia acabado de passar pelo treinamento da empresa, vim até a Índia a trabalho e já sabendo dessa flexibilidade entre turnos, concordei em estar disponível para ficar troncando logo na entrevista via Skype, confesso que estava curioso por essa experiência.

Indianos, alemães, nigerianos e chineses faziam parte daquele time da madrugada. Achei que teria dificuldades naquela sexta-feira pois não consegui dormir bem na noite anterior. Mas com um clima mais informal, muito trabalho a fazer e umas doses de chai tea, a princípio, tirei de letra.

O porque da minha curiosidade

Muitos vão se identificar com isso: sempre tive hábitos noturnos, assim como grande parte dos jovens, foram sempre frequentes as noitadas até 3-4h da manhã, saindo com os amigos ou em casa vendo filme. Depois que passei dos 23 anos, minha orientadora de vida e mãe me passou o mesmo feedback umas 3 vezes: “Filho, se você quisesse ser DJ ou arrumar algum outro trabalho noturno eu entenderia esse seu péssimo hábito”. Em todas as vezes, respondi: “Tá bom, mãe. Tá bom”. Ela deve ter achado que aquele conselho entrou por uma orelha e saiu pela outra, mas a verdade é que uma semente ficou plantada, sempre ouço com atenção as palavras daquela sábia mulher.

A sociedade B

Também lembro de certa vez que um querido amigo da república de estudante que morei durante a faculdade me mostrou essa matéria falando sobre a “Sociedade B” que seria o conjunto das pessoas mais produtivas durante a noite.

De acordo com a matéria, a disposição e o nível de produtividade das pessoas é algo genético. Foi escrito um livro chamado Internal Time: Chronotypes, Social Jet Lag, and Why You’re So Tired que fala de uma pesquisa feita na Alemanha que mapeou os ritmos circadianos (resumidamente, é o ciclo biológico pessoal de cada um) de 125 mil pessoas, concluindo que apenas 10% a 15% seriam pessoas da “sociedade A”, 15% a 25% seriam “sociedade B” e o grande vão no meio seriam as pessoas que conseguem se adaptar aos dois tipos de vida.

Algumas empresas na Europa já estão experimentando turnos noturnos para pessoas com perfil da sociedade B.

A experiência do Cosmopolita

No Brasil, sempre tive dificuldade com compromissos logo cedo no dia, eram frequentes as manhãs nos lugares onde trabalhei que me entupia de café. Topei o desafio. Aliás, eu vim para Índia exatamente para passar por situações diferentes, me testar, me conhecer melhor.

Entre idas e vindas, ao todo devo ter trabalhado no night shift pouco mais de 3 meses. No começo foi interessante, achei ter tirado de letra. Não ficava nem um pouco cansado durante o trabalho e até já estava pensando em elaborar uma resposta para aquela pergunta da minha mãe.

Até que o tempo foi passando e a rotina era a seguinte: voltar do trabalho cerca de 4h da manhã, não conseguir dormir até as 7h (isso acontecia com a maioria dos que trabalhavam comigo), matar esse tempo com filmes e livros, acordar lá pras 14h e até cozinhar meu almoço, almoçar, cozinhar a janta pra levar pro trabalho e lavar a louça, já era cerca de 16h30 e 17h30 eu já tinha estar me preparando pra ir trabalhar.

Ou seja, só sobrava 1h útil do dia pra mim (tudo bem que eu poderia ser mais determinado para fazer uma rotina mais rigorosa), eu morava com mais 4 pessoas e não via ninguém por causa dos horários, de vez em quando eu voltava pra casa correndo no intervalo da janta pra ver a galera (que só sobrava 20min), perdia a sexta e ganhava o domingo (que nem eu queria sair pra algum lugar).

Concluí que aquilo não era vida! Passei a odiar aquele turno!

A Índia e o turno noturno

Saindo 4h da manhã pra voltar pra casa, chega o elevador daquele prédio comercial e adivinhem só?! ELEVADOR LOTADO!!! Apesar de saber que o elevador ia estar cheio, eu sempre ficava espantado com aquilo! Cara, 4h da manhã!!!! Como assim?!?!

É aí que entra a questão que escrevi aqui das empresas que terceirizam trabalhos para os EUA ou trabalham com esse país direta/indiretamente. Como um dólar vale 70 rúpias indianas e as pessoas são mal pagas aqui, com certeza um serviço oferecido por uma empresa indiana é MUITO mais barato do que de uma americana.

Então, as empresas indianas acabam atendendo uma demanda global e como tem indiano pra c@r@|#0, gente pra topar trabalhar de madrugada, não falta.

O que O Cosmopolita concluiu sobre si mesmo

Já sei que não é nas primeiras horas do dia que eu rendo mais. Mas depois dessa experiência, não creio que eu seja da sociedade B, devo ser da AB, aquele vão que consegue se adaptar à qualquer horário.

Trabalhar fixamente nesse horário, não quero nunca mais. Concluí que o que eu preciso mesmo é desenvolver uma disciplina para ter uma rotina mais rigorosa.

De qualquer forma, a experiência foi super válida pra tirar essa dúvida. Vivendo e aprendendo.

E você, qual sociedade pertence?

O Cosmopolita

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Um comentário sobre “Como é trabalhar de noite na Índia

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