Goa: o berço do trance

Todo festival de música eletrônica no Brasil tem um “palco Goa” e muito se fala da origem do trance em Goa. Mas afinal, onde fica Goa? E como é?

Goa é um estado-cidade da Índia localizado na costa oeste (mar arábico), ao sul de Mumbai. Assim como outros lugares da Índia da costa oeste como Diu e Mumbai, os portugueses também se estabeleceram por lá durante o período das grandes navegações. Alguns resquícios são: igrejas católicas, fortes, e os indianos dizem que alguns idosos ainda falam português mas eu não cheguei a conhecer nenhum.

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Coqueiros para todo lado, sol se pondo no mar e muita festa, fazem de Goa, o principal destino no litoral da Índia. Tanto para indianos quanto para estrangeiros. A quantidade de pessoas do norte da Europa e da Rússia que vai para a Índia só pra curtir uma praia em Goa não é pouca coisa.

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Por do sol em Anjuna Beach

Enfim, Goa é dividida em 2 distritos: Goa norte e Goa sul.

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O norte de Goa é muito conhecida pelas festas e pela música eletrônica e o sul de Goa é mais conhecido pelo sossego e praias tranquilas.

A história do trance em Goa

No final dos anos 80 (assim como hoje), muitos estrangeiros ligados à contra-cultura viajaram à Goa. Muitos já eram envolvidos com a produção de música eletrônica e desenvolveram de forma intuitiva um novo estilo com sons da natureza e elementos orientais como mantras indianos. Assim, surgiram as festas de trance em Goa que ficaram grandes e concretizaram o Goa trance.

A minha experiência

Infelizmente não tive a oportunidade de conhecer a parte sul de Goa nem de fazer os passeios turísticos. Fui pra lá no revéllion, alta temporada, com um grupo grande de amigos que queria ficar na mesma praia o dia inteiro tomando cerveja, o que dificultou qualquer iniciativa de conhecer o resto de Goa já que é muito difícil se locomover em Goa porque os lugares são muito longe um do outro e os taxistas cobram preços absurdos.

Por exemplo, para ir do norte para o sul de Goa leva DUAS HORAS de táxi e custa 3500 rúpias, equivalente a R$178, o que torna inviável andar de táxi sozinho.

Então só conheci duas praias: Anjuna e Vagator. Que creio ser as mais frequentadas do norte de Goa.

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Amigos pedindo cerveja em um quiosque em Anjuna Beach

Anjuna Beach

De longe a mais badalada, cheia de quiosques com música eletrônica alta, passeios de jet ski, banana split (rs!) e coisas do tipo. Além de ter uma feirinha cheia de roupas, lembranças e artesanato.

 

Vagator Beach

Pouco mais ao norte de Anjuna, é uma praia menor, com uma extensão de areia mais larga, com algumas pedras pelo mar, MUITO mais vazia que Anjuna e consequentemente mais sossegado. Também têm alguns mirantes que permitem uma vista panorâmica da praia.

 

Ok… Vamos às baladas:

1) Curlie’s

Localizado no canto esquerdo da praia de Anjuna, é um quiosque normal durante o dia e durante a noite, vira uma balada de eletrônico cobrando entrada. Com um palco decorado psicodelicamente com luzes negras, a brincadeira vai até o sol nascer.

O Curlie’s não é exatamente na areia, tem uma arquibancada para chegar na praia. A proporção de homem/mulher é bem desequilibrada para o lado dos homens, o que pode deixar as mulheres desconfortáveis, principalmente por ali é um lugar que dá de tudo, desde de transexual se prostituindo até indiano dando o golpe de pintar seu rosto com tinta que brilha na luz negra e cobra dinheiro no final sem avisar.

Claro que vai de você saber aproveitar.

 

Entrada: 500 rúpias = R$25 (se você estiver por lá durante o dia e ir ficando, não é cobrado)

2) Club Cabana

Localizado à uma meia hora de táxi de Anjuna no topo de uma montanha, essa é tipo aquelas baladas de Porto Seguro, sabe?! Se não me engano tem 4 ou 5 ambientes com ótima estrutura. Lugar aberto, fechado, piscina, trance, deep house… E ainda é open bar (whiskey, tequila e a porra toda) e open food, mas o preço……

 

Entrada: 4000 rúpias = R$200 (open bar + open food)

3) Sunburn Festival

É a versão indiana do Tomorrowland, rs! É um festival eletrônico mais com música comercial, mas é bem grande e bem famoso. Com direito a bungee jump, roda gigante e passeio de balão. Costuma ser religiosamente em Goa no Vagator Beach durante alguns dias no revéllion e justamente na sua comemoração de 10 anos, quando estávamos lá (2016-17), o festival foi em Pune, perto de Mumbai.

Achei bem mal organizado e mal divulgado, meus amigos que organizaram nossa viagem já estavam de olho nesse festival desde outubro, o festival estava confirmando algumas atrações e não liberava a compra de ingressos. Até que chegou em dezembro e anunciaram que o festival seria em Pune (e não em Goa) pela primeira vez. Fico imaginando os estrangeiros que compraram passagem de avião e se planjearam para ter ido lá.

Minha opinião sobre Goa

Sobre a “cena” do eletrônico: Tudo bem que eu não fui muito atrás mas pelo que se fala de Goa, esperava que a cena underground fosse fortíssima, evento de eletrônico pra todo canto e sinceramente não é assim. Então se você é do trance e for para Goa não crie expectativa para não se frustrar.

Sobre a minha experiência: Essa foi uma das poucas viagem que fiz na Índia e não gostei. Gosto de chegar em um lugar e conhecer tudo o que tenho interesse, lá em Goa tem um monte de praia, cachoeira, passeio de elefante e eu fiquei preso na mesma praia durante uns 5 dias. Mas claro que vai de você saber aproveitar da sua forma e ir atrás do que você gosta de fazer. Muita gente vai lá e curte muito.

Sobre Goa: Sou da opinião de que Índia não é lugar para ir atrás de praia. Brasileiro adora praia, afinal, temos uma das praias mais bonitas do mundo e vejo que o pessoal costuma muito buscar praia e é muito comum colocar Goa no roteiro. Estando na Índia, acho muito mais válido ir atrás de coisas que não têm no Brasil, explorar a cultura indiana, ir nos fortes, palácios, templos, cavernas e montanhas. Deixem praia pro BRASIL! Ou pro sudeste asiático…

Mais informação

Passeios turísticos (que perdi): *cachoeira Dudhsagar (uma das maiores da Índia), *passeio de elefante (Jungle Book ou Sahakari Spice Farm), praias do sul, fortes e igrejas católicas (Old Goa).

 

*Eu vi uns pacotes de day tour que incluía transporte, alimentação, passeio nas cachoeiras e de elefante por 4000 rúpias (R$200)

Outras baladas: Nyex Beach Club, Chronicle, Hill Top.

(amigos me enviaram vídeos da Hill Top depois de lerem minha crítica nesse post, parece que lá é um lugar conhecido mundialmente conhecido pelo trance)

Dica de hostel (em Anjuna): “The Prison”

 

Esse foi o hostel mais animado que vi em Anjuna. Não cheguei a ficar lá mas fui para tomar umas cervejas. O hostel desdobrou a questão das janelas terem barras de ferro e fez uma decoração de prisão, além de ter um ônibus na entrada, que é um bar.

O Cosmopolita

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A primeira vez que toquei um elefante

Era sábado de madrugada. Foi depois de uma daquelas festinhas na casa de alguém. A brincadeira foi leve mas foi longe naquele dia, chamamos um Uber para ir embora lá pras 4h da manhã (sim, tem Uber na Índia). A corrida até onde morava dava uns 20min. Eu, Monica e Diego fomos tagarelando em português durante aquela madrugada quieta enquanto nossa amiga do Botswana desistiu de interagir conosco.

Foi então, que surgiu no meio da rua, dois caras andando de elefante, foi a segunda vez que eu vi um elefante aqui na Índia (a primeira foi no meio do trânsito). Os outros dois brasileiros também não estavam acostumados com aquele animal, ficamos encantados, meti a cara para fora da janela e ficamos babando.

A conversa virou: “Nossa!”, “Caramba!”

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O motorista do Uber vendo aquela cena, parou o carro. Assim como os caras andando de elefante também pararam simultaneamente assim que viram a cara dos gringos desacreditados. Fomos logo tocar no elefante, um animal muito pacífico… E quentinho. Rs! Que momento inusitado!

Um contato rápido, tiramos umas fotos… Enquanto eles seguiam seu caminho pelas ruas de Ahmedabad, fiz esse registro. Ainda digerindo e comentando aquela experiência, encontramos mais 4 elefantes no cainho. Deviam estar levando eles para algum lugar. O porquê desse horário, ainda não descobri o motivo.

Foi ali que entendi porque os elefantes são tão queridos. Eles, realmente, além de chamarem a atenção por serem grandes e exóticos, passam uma energia boa.

Fomos todos dormir com essa cena na cabeça…

O Cosmopolita

Essa sensação de liberdade

Era domingo em Ahmedabad. Estava em casa de bobeira. Acabou que no fim de tarde fui visitar uma mesquita que estava querendo conhecer no centro da cidade. Saí de casa naqueles dias com um brilho no olhar e o coração aberto. Cheguei na hora da oração das 18h.

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Mesquita Sidi Saiyyed durante a oração das 18h em Ahmedabad

Os indianos gostam muito de estrangeiros, acabada as orações, 3 caras ficaram curiosos e me abordaram. Depois de uma sessão de selfies, batemos um papo e acabou que fui andando com eles até uma lanchonete que fica à uns 3-4 quarteirões dali. Disseram que servia o chai tea mais tradicional da cidade, o lugar tinha 300 anos.

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Cheguei lá, era tipo um botecão caindo aos pedaços. Sem problemas, não julguei. Estava muito ocupado pensando em quantos chás já foram tomados naquele lugar, quantas situações já aconteceram ali… Porra, 300 anos? Mais antigo que muita cidade no Brasil.

Os 3 caras trabalham juntos na gerência de uma escola da cidade, que por sinal, me pareceu ter uma proposta interessante… E lá estava eu. Domingo a noite em um boteco tomando chá no centro da cidade em uma prosa saudável com 3 muçulmanos que havia acabado de conhecer. Eles fizeram questão de pagar a conta. Acabando o chá eles seguiram seu caminho e eu, o meu.

Uma breve despedida, e, na calçada, olho pro lado e vejo esse bode na calçada. Que cidade de 3 milhões de pessoas tem bode solto no centro da cidade?

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(essa foto ia entrar no post anterior mas deu um texto)

São coisas simples. Uma lanchonete velha, pessoas aleatórias, um bode… Grande coisa, né?! Mas como é gostosa a sensação de liberdade de se abrir para as experiências que cruzam seu caminho e simplesmente viver o presente.

O Cosmopolita

12 animais que se encontra pela Índia

Que a Índia é um dos países mais populosos do mundo, todo mundo já sabe. Na Índia, a vida está em todos os lados mas além das pessoas, os animais são MUITO presentes!

Foi percebendo isso que resolvi listar 12 animais que se encontra pela Índia e desdobrei algumas questões relacionadas à eles. Dos fofos, aos nojentos, passando pelos sagrados. Tentei organizar em uma ordem decrescente dos mais fáceis de se ver aos mais difíceis:

1) Vira-lata

Assim como qualquer lugar do mundo, vira-latas são os animais mais vistos. A diferença da Índia é que os indianos só criam cães de raça e tem uma rejeição enorme pelos vira-latas ao ponto de eles ficarem totalmente abandonados nas ruas sendo muito fácil ver vir-latas mancos ou com enormes feridas (alô defensores dos cachorríneos!). Em determinados lugares, também se vê uma grande população de cachorros.

Outra curiosidade é que em algumas regiões da Índia, é banal os cachorros dormirem em cima dos carros:

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2) Pomba (#pruu)

As pombas também estão em todo lugar do mundo. Mas a diferença na Índia é que eles alimentam os pombos, eles acreditam ser uma forma de boa ação, que gera karma positivo e pode voltar para a pessoa.

Então em determinados lugares públicos, é comum alguém vender comida de pássaro para as pessoas alimentarem os pombos. Nas empresas e casas, é comum deixar um pote de água e outro de comida de pássaro em algum lugar aberto para os pombos. A presença dos pombos é tão comum que eles mal se importam das pessoas caminhando ao redor.

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Crianças alimentando os pombos

3) Vaca

Todo mundo sabe que a vaca é sagrada na Índia. Elas estão por toda parte, tão largadas quanto vira-latas. Vou desdobrar a questão da vaca em outro post.

4) Búfalo

A Índia além de ter o maior rebanho de vacas do mundo, também tem o maior rebanho de búfalo, um a cada dois búfalos do mundo está na Índia.

A vaca é sagrada mas o búfalo não é. Então, os muçulmanos criam búfalos para comê-los. Os indianos definem a carne de búfalo como gordurosa (não cheguei a experimentar). Muitas famílias também criam búfalo por causa do leite.

Os búfalos causam um certo estranhamento para nós, brasileiros, devido à sua aparência selvagem. Eles são tipo uma vaca preta, grande, peluda e com chifres longos. Apesar dessa aparência, também são mansos.

5) Esquilo

Extremamente ágeis, esses roedores também estão por todo lado. São muito fofos 🙂

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6) Bode

Os bodes são menos comum de ver em grandes centros urbanos. Os indianos também comem a carne de carneiro.

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Bode em um ghat em Varanasi

7) Macaco

Também é muito comum encontrar macacos pela Índia. Eles costumam andar em bando e apesar de terem se adaptados aos centros urbanos, são selvagens. Então tome cuidado com o líder do bando ou se estiver com comida na mão.

Os biólogos de plantão que me perdoem, não sei o nome das espécies (me ajudem nos comentários) mas existem duas espécies principais de macacos na Índia:

  •  São maiores, têm o rabo bem comprido, rosto e patas pretos e pelos claros.

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  • São menores, têm o pelo mais escuro e a bunda vermelha como um babuíno. Muito comuns no norte da Índia.
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Macaco no templo dos macacos (Hanuman Temple) em Jaipur

Os macacos são tão presentes na Índia que existe um deus hindu com rosto de macaco, chamado Hanuman:

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Cidades turísticas com macacos: Jaipur (Hanuman Temple e Pink City), Udaipur (Monsoon Palace), Rishikesh (ponte Lakshman Jhula).

8) Camelo

Mais comuns em regiões mais secas da Índia como o estado do Rajastão. Eles são muito usados para puxar carroças.

Cidades turísticas com camelo: Jaipur (Jal Mahal), Jaisalmer (safari de camelo no deserto), Pushkar.

9) Elefante

AHÁ! chegou a hora esperada!

Os elefantes também são animais sagrados devido sua importância histórica, eles foram muito utilizados nas construções, no transporte e nas guerras.

Hoje em dia eles são utilizados no turismo e em cerimônias religiosas.

A imagem dos elefantes está associada à força e trabalho e também eram um transporte de luxo, usado pelos nobres. É frequente ver a imagem dos elefantes com deuses em templos e existe um deus hindu, Ganesha, com rosto de elefante.

Cidades turísticas com elefante: Jaipur (Haathi Gaon), Goa, Hampi.

10) Rato

É, aquela fama da Índia sobre a falta de higiene e de estrutura é verdade então se acabando vendo em casas, restaurante ou mesmo na rua, ratos vagando.

O rato é um dos animais do hinduísmo conhecidos como vahana, que são usados como meio de transporte pelos deuses. Por mais impossível que isso possa parecer, no caso do rato, ele é o transporte de Ganesha, o deus com cabeça de elefante.

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Além disso, em Deshnok, no Rajastão, existe um templo dos ratos, onde eles são sagrados (acabou que não fui).

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Foto do templo dos ratos chamado Karni Mata

11) Pavão

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O pavão tem sua importância, entendi ter sido muito presente no passado e creio ser presente no interior. Sua pena tem um valor especial.

Assim como o rato, o pavão também é um vahana, no caso do pavão, ele é o transporte de Sarasvati, deusa das artes e esposa de Brahma (o deus criador).

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Figuras de pavão no templo Kapaleeshwarar em Chennai

12) Periquito

Periquitos não são tão vistos, mas é possível vê-los em alguns lugares.

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Periquito no forte de Jodhpur

O Cosmopolita

O papel em branco

(pegando um gancho no post anterior)

Suponha que sou uma folha de papel em branco

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Eu escolhi morar em um país menos desenvolvido que o Brasil justamente para eu ter a oportunidade de me testar. E através disso, me esboçar, me reescrever, me amassar, desamassar e amassar de novo até o ponto que de tanto rabiscos, de tantos amassados, levar comigo diferentes conteúdos, passar por diferentes formas.

Os escritos apagados são as idéias que não sigo mais, amadureci outras. Os escritos legíveis são as idéias reafirmadas. Os amassados são resquícios de uma pessoa que não existe mais. Porém, as cicatrizes estão ali, já assumi diferentes formas, tenho que permitir me reinventar.

O mais importante de tudo isso é saber que vou sempre poder me reescrever e me moldar do jeito que achar preciso. Afinal, já dizia o poeta: “eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Independentemente de onde eu estiver ou do que estiver fazendo. Vou me escrever e reescrever até esse lápis chamado vida acabar.

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E sigo escrevendo e me reescrevendo…

O Cosmopolita