Como eu me tornei vegetariano na Índia

Choques culturais provocam choques de valores… E mudança de hábitos também! Talvez essa seja uma das coisas mais loucas de viajar.

Isso mesmo. Durante minha estadia na Índia adotei o vegetarianismo (ou quase isso). Mas falando assim, parece que foi um processo rápido. Não foi. Vou explicar aqui passo-a-passo como me tornei um vegetariano:

1) Família vegetariana

Desde que nasci, minha mãe é vegetariana então sempre tive esse exemplo em casa e entendia esse tipo de alimentação como totalmente normal e nenhum absurdo. E de uns anos pra cá, meu irmão mais velho se tornou vegetariano, acompanhei por cima (já que morávamos em cidades diferentes) como ele se alimentava tentando entender um pouco essa mudança. Foi então que nos churrascos de família, passou a ser apenas eu e meu pai de olho nas carnes na churrasqueira.

2) Idas a restaurante vegetariano

Apesar da mãe vegetariana, jovem é sempre cabeça dura. Então foi um amigo que me levou certa vez para almoçar em um restaurante vegetariano depois do cursinho pré-vestibular. Fiquei impressionado como as refeições daquele restaurante não pesavam na barriga e não ficava com aquela indisposição depois do almoço, digerindo a carne. Gostei do hábito e vez ou outra, sentia que caía bem, almoçar em um restaurante vegetariano.

3) Redução do consumo carne

Mas foi só no último ano da faculdade e no ano posterior, onde estava cozinhando a maioria das minhas refeições que resolvi que não iria comer carne todos os dias. Então tive uma redução boa do consumo de carne.

4) Mudança para Gujarati na Índia

É agora que a Índia entra na história! Em Gujarati, para ser mais específico, estado onde Gandhi nasceu e passou parte de sua vida. Gujarati é tido com um estado religioso (hindu) e conservador na Índia. O que quero dizer é que lá, as pessoas seguem o hinduísmo a risca e portanto, são vegetarianas.

Com uma demanda baixa por carne, a carne de búfalo não fica tão fácil de achar. Então, assim que mudei para lá, não tive escolha e cortei a carne bovina. Mas sinceramente não me fez falta, já que tinha frango pra todo lado. Apesar de não comer todos os dias.

5) Cortei o frango

Depois de oito meses na Índia, comendo frango cerca de 3x por semana, sem nenhum tipo de crise de abstinência de carne, senti que não tinha nada a perder e foi então que aproveitei que estava na Índia para fazer um experimento de como é ser vegetariano e resolvi cortar o frango de vez! Esse passo foi muito fácil já que a maioria dos lugares só tem comida vegetariana e eu estava disposto à essa mudança.

Então, voltando do último revéllion de Goa, terminei o frango congelado no freezer e de lá pra cá, estou sem comer carne de vaca e sem frango.

Documentários

Para me engajar no assunto, resolvi assistir alguns documentários para me informar melhor sobre a causa e estilo de vida que estava aderindo, então vou listar aqui abaixo alguns documentários de forma que eles seguem uma linha de pensamento:

(Se quiser, pule para a conclusão)

1) Cowspirancy

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Talvez o documentário mais famoso, o Cowspirancy é um documentário investigativo produzido por Leonardo DiCaprio e dirigido por Kip Andersen que após assistir o “Verdade inconveniente” do Al Gore resolveu fazer sua parte em pequenos atos em casa como economizar água, energia e ir de bicicleta para o trabalho se tornando o que ele chama de Ambientalista Obsessivo-Compulsivo.

Foi então que ele leu uma matéria que um amigo postou no Facebook dizendo que a criação de gado gera mais gases de efeito-estudo do que as indústrias e resolveu investigar o assunto.

Kip concluiu que o grande inimigo da sustentabilidade é a indústria pecuária já que peido de vaca (isso mesmo!) polui mais do que as indústrias e transportes, além de exigir uma grande área para gado pastar, cultivar grãos para servir de ração para o gado e os dejetos de gado serem um grande poluente de rios e lençóis freáticos.

Kip visita as principais ONGs relacionadas à proteção do meio ambiente e nenhuma delas menciona a questão do gado. É então que ele percebe que na verdade, elas são patrocinadas pelas principais empresas de carne e também entende o perigo de bater de frente com essas grandes organizações.

O documentário conclui afirmando que com o crescimento da população mundial, é insustentável uma dieta diária com carne para todas as pessoas do mundo já que o planeta não tem área suficiente para gado pastar e cultivar sua ração para atender essa demanda, além da criação de gado ser o maior problema ecológico devido ao desmatamento e poluição do ar e da água.

Esse documentário está disponível no youtube e no Netflix.

2) Forks over knives

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Esse documentário começa com um apelo mostrando as estatísticas de que 1/5 das crianças americanas são obesas e essa deve ser a primeira geração com uma expectativa de vida menor que a anterior.

O documentário se baseia em entrevistas com dois médicos americanos referência em pesquisa sobre o assunto que afirmam que diabete, câncer, além de outros problemas relacionados à saúde são consequência de comer carne.

Expõem a questão da indústria farmacêutica que ganha muito dinheiro com diabete e câncer. “Alguém tem que dizer que para resolver o problema não é outra pílula, e sim, espinafre!” menciona o documentário que também cita Hipócrates (pai da medicina): “que a comida seja seu remédio”.

Também é desdobrado o MITO de que a proteína só tem na carne e que vegetarianos são deficientes em proteína. O colesterol, por sua vez, só tem em carne e laticínios.

O documentário mostra pesquisas feitas na China, Filipinas, Havaí e mostra médicos que tratam pacientes com dieta vegetariana e os resultados que tiveram. “Temos duas opções: você pode comer até ficar doente e morrer cedo ou pode comer e viver uma vida longa e saudável e esse caminho é feito com uma dieta vegetariana”.

Disponível no Netflix.

3) What the health

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Sequência do Cowspirancy, dessa vez, Kip Andersen que já teve familiares mortos por câncer e diabete, resolveu investigar a influência da alimentação na saúde.

Há 50 anos existem estudos que apontam carnes processadas (salsicha, presunto, salame, peperoni) como alimentos cancerígenos do grupo UM e a carne vermelha como grupo DOIS, assim como o cigarro!

Diabete NÃO é causada por açúcar e sim por gorduras e toxinas de carne e laticínios.

Kip vai atrás de ONGs que lidam com câncer e diabetes, vê que elas recomendam carne na alimentação e percebe que também são patrocinadas por grandes empresas dessa indústria. Ou seja, são patrocinadas por empresas que causam os problemas que elas combatem.

Desmente o MITO da proteína, proteína vem dos vegetais e não existem casos de deficiência de proteína.

Mostra exemplos de pessoas se entupindo de remédio para tratamento que apenas manipulam os sintomas mas não curam as doenças e elas tomarão os remédios até morrer. A indústria farmacêutica é muito lucrativa e grandes empresas desse ramo também financiam as ONGs relacionadas com câncer e diabete.

Mostra caso de pessoas que trocaram os remédios por dieta vegetariana e melhoraram de forma relevante na saúde e tratamento de suas doenças. Cita médico que tratou muitas pessoas nos anos 40. Porque os médicos não falam disso? Porque isso não é ensinado nas faculdades de medicina, e as empresas farmacêuticas foram ativamente contra a educação de médicos sobre nutrição.

Esse documentário está disponível no youtube e no Netflix.

4) Food matters

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Documentário feito com entrevistas muito claras de médicos e pessoas engajadas. Nesse documentário desdobra mais ainda a questão da alimentação, também afirma que câncer e diabete são consequências do consumo de carne e que “boa saúde faz sentido mas não faz dinheiro” e a indústria farmacêutica ganha muito dinheiro com remédios e cirurgia e etc.

É afirmado que uma dieta com super-alimentos (adoro esse termo) é mais barata e mais saudável, a diferença na disposição física, saúde da pele, do cabelo é notável. Além da maior imunidade à doenças.

Esse documentário também mostra dados de pacientes em estados avançados de câncer, conseguem curar-se adotando uma dieta vegana.

Disponível no Netflix.

5) Earthlings (Terráqueos)

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Documentário de 2005, um dos mais antigos tratando essa questão. O Earthlings começa expondo o conceito de especismo que significa que o homem se acha no direito de explorar e matar outras espécies por considerá-las inferiores. O documentário é dividido em 5 partes: animais de estimação, comida, pele para roupas, entretenimento (circo, zoológico) e ciência (experimentos).

O que nos interessa aqui é a parte 2: comida. Esse documentário é o que tem imagens mais fortes, ele desdobra toda a questão das condições que os animais são criados, transportados e como é o abate. Os porcos por exemplo, vários processos dolorosos são feitos sem anestesia, ficam doentes, praticam canibalismo, seus dejetos contaminam o solo. Mostra as vacas leiteiras, as galinhas que produzem ovos… “Se você come, você é cúmplice”.

Disponível no youtube.

6) A carne é fraca

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Documentário brasileiro também de 2005, sustenta a tese que o consumo de carne é o maior problema social e ambiental do planeta, que mostra uma série de entrevistas e abrange todas as questões relacionadas à esse tema: crueldade dos abatedouros, o câncer, MITO da proteína, problemas ambientais e o especismo.

Problemas ambientais e sociais: Desmatamento para criar gado (“Ficar olhando foto de queimada da Amazônia é igual ficar olhando a febre. Doença é a queimada e doente é quem come carne”), infiltração de dejetos nos lençóis freáticos, grande consumo de água para animais que vão ser abatidos. Se ao invés de produzirem ração para gado, plantassem comida, não existiria fome no mundo.

Câncer: “não se tem notícia de câncer em animais herbívoros, esse é um sinal importantíssimo para o homem repensar sua alimentação”.

Proteína: “Quem tem escassez de proteína? Eu não conheço ninguém! O que tem é excesso de gordura!” (causado pelo consumo de carne).

Abate: “Porque não permitem que visitem e gravem cenas nos abatedouros? Porque realmente o que acontece lá dentro são coisas muito chocantes!” Esse documentário tem algumas cenas fortes.

Especismo: O abuso do poder sobre os animais é usado da mesma forma com os escravos no passado, dizendo que eles não pensam e não tem sentimentos. Na indústria, eles não sabem quem são, nunca conhecerão a mãe e são tratados como coisas durante o processo. Os animais tem muitas qualidades e o que eles têm para nos oferecer em termos de companhia e afetividade é uma coisa maravilhosa.

Disponível no youtube.

Conclusão

Claro que ainda tem outros documentários, mas a partir desses já dá para ter uma idéia boa dos malefícios de comer carne e as principais questões levantadas pelos vegetarianos. Se me perguntar, sugiro começar pelo Food Matters e o Forks over kives.

Vou pontuar aqui o que absorvi:

  • A primeira questão creio ser a insustentabilidade do consumo de carne que demanda espaço tanto para a criação dos animais quanto para plantar os grãos que servem de ração, esses animais demandam um grande consumo de água e gera desmatamento para essas áreas, além do peido de vaca (rs!) ser o principal poluente do ar e os dejetos poluírem a água.
  • Fica claro que o consumo de carne está relacionado com câncer, diabete, colesterol, obesidade e menor imunidade do organismo. A questão da falta de proteína em uma dieta vegetariana é UM MITO! Fiquei impressionado com os casos de pessoas se curando de doenças depois de cortar o consumo de carne. Sem falar que uma dieta vegetariana É MAIS BARATA.
  • Devemos rever nossa relação com os animais, a indústria da carne é de fato muito cruel e as condições dos animais são bizarras.

“Se os abatedouros tivessem paredes de vidros, seríamos todos vegetarianos”

John Lennon

Mudança de hábito

Claro que tenho amigos carnívoros que NÃO ACEITAM uma dieta vegetariana, não conseguem ver um porquê nisso tudo. Mas é uma questão de mudança de hábito, exige interesse, informação, cabeça aberta e força de vontade.

Não é que o sabor da carne não agrada meu paladar, no Laos tinha churrasco à cada esquina e confesso que passei vontade sentindo aquele cheiro. Mas depois de entender que eu não preciso e ao me acostumar com uma dieta vegetariana, ficou simples.

Não sei até que ponto “carne é bom” é um argumento. No livro “Milagre nos Andes” sobre um time de rugby do Uruguai que caiu de avião nos Andes, eles praticaram canibalismo comendo os amigos mortos para sobreviver e descrevem a carne humana tão boa quanto a bovina.

Enfim, é uma mudança de hábito… Não é simples. Exige força de vontade.

Experiências viajando

Tenho duas experiências que tive viajando que gostaria de compartilhar para desconstruir ainda mais o consumo da carne:

1. O maior contato com o abate

Tanto na Índia/Nepal quanto sudeste asiático, se você quiser comer carne, muitas vezes você tem que ir no açougue onde as carnes vão estar penduradas cruas sem nenhuma higiene ou o açougueiro vai matar e limpar o animal (como uma galinha) pra você na hora:

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Açougue em Kathmandu, Nepal

É aí que muitos ocidentais ficam com nojo ou não querem comprar carne nesses lugares porque não querem ver ou financiar a morte do animal ali. Quando você entende como as coisas realmente acontecem, a ficha cai. Hoje em dia, estamos acostumados a comprar a carne prontinha na bandeja do supermercado e não temos noção nenhuma dos processos que levaram para aquela carne está ali. Das condições do animal, do abate, de como limpam e acabamos consumindo de uma forma intuitiva e imposta pela cultura.

2. Culturas que comem animais diferentes

Não cheguei a ir pro Camboja, mas lá, assim como na China, come-se carne de cachorro. Cheguei a ouvir várias vezes, comentários de mochileiros que se assustaram quando foram para esses lugares e acharam horrível ver o comércio de carne de cachorro.

Aí eu pergunto se a pessoa come carne e ela diz que sim. Sério, tem hipocrisia maior que essa? Que tipo de seletividade é essa? Vaca e porco tá podendo mas cachorro não? Porquê? Nenhum deles conseguiu me responder.

Não me venha com esse papo de protetor nutella dos animais…..

 

Qual minha expectativa para o vegetarianismo na minha vida?

É… A Índia acelerou meu rumo ao vegetarianismo, ter morado em um país vegetariano me deu outra percepção.

Bom, já estou 1 ano e 2 meses sem comer carne de vaca e porco e 8 meses sem comer frango e a idéia é não ter volta. Ainda como peixe e camarão vez ou outra, e como ovo. AHÁ! ENTÃO VOCÊ NÃO É VEGETARIANO P0#R@ NENHUMA!!!!

Como disse no item 5, tudo começou com um experimento. Tive a disposição de fazer esse experimento e senti que não tinha muito a perder. De qualquer forma, a idéia é cortar o peixe e o camarão em breve.

Ainda estou na dúvida do quanto radical se precisa ser, tenho adotado o caminho do meio para muitas coisas na minha vida. Ainda não sei se é preciso ser radical ao ponto de NUNCA MAIS comer carne, não comer o feijão do restaurante porque tem carne no meio e situações do tipo… Mas quanto mais eu vou me informando sobre o assunto, menos tenho interesse em comer carne.

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Ainda não sou 100% vegetariano, mas de fato, ter morado em Gujarati foi coisa do destino. Como disse lá em cima, choques culturais (como o do açougue) levam a choques de valores… E mudanças de hábitos!

Então, eu tenho levado essa dieta “pescetariana” numa boa, estou conseguindo manter essa alimentação mesmo fora da Índia. Tem me feito bem, me sinto leve, com consciência limpa, mais alinhado com a natureza e bem comido. E seguirei assim…

 

É, pai. Agora é só você de olho nas carnes da churrasqueira…….

O Cosmopolita

9 comentários em “Como eu me tornei vegetariano na Índia

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  1. Introduzi carne na alimentação de vocês com medo de faltar algum nutriente. No entanto, sonhava que quando crescessem, vocês deixariam a carne de lado. Mas confesso que já havia perdido as esperanças. De repente, fui surpreendida com a decisão do seu irmão de cortar a carne. Agora fui surpreendida novamente. Até tu, Brutus? Que legal!

    Curtido por 2 pessoas

  2. Boa Barbosa!! Admiro quem tem força de vontade para atitudes e mudanças de hábito como essa!! Mas confesso que é díficil tentar abrir mão do sabor de uma picanha viu!! :/
    Mas fica aquela pergunda, se o peido da vaca é um dos gases mais poluentes, a opção seria acabar com todas as vacas? se vai acababar com elas, melhor comer a carne de uma vez, não? hehehe Zueira Mermao!
    Parabéns pelo texto e pela atitute. Continue se aventurando e postando Cosmopolita!! 🙂

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