Introdução à religião na Índia

Estava ansioso para escrever sobre espiritualidade aqui. Todo mundo sabe que a Índia é um país que a religião tem um papel importante na vida das pessoas, de fato é um dos choques culturais da Índia e confesso que foi um dos motivos para eu ter me mudado para a Índia foi desenvolver meu lado espiritual.

Mas afinal, os indianos são tão espiritualizados assim?

Uma das primeiras perguntas que os indianos fazem é: “Qual sua religião?” Cheguei a ter que responder essa pergunta até em formulários. Bom, além do hinduísmo, são praticadas outras religiões na Índia e na verdade, esse país abriga várias religiões, muitas delas foram criadas lá e no Brasil temos pouquíssimas informações sobre esse assunto.

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Torres de templo hindu. Muito fácil de identificar e estão em todo lugar

Olha a porcentagem de cada religião na população indiana de acordo com o censo de 2011:

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Nesse gráfico, fica bem claro que a grande maioria é hindu, seguida dos muçulmanos que têm uma porcentagem relevante, 14% dos indianos são muçulmanos. Ou seja, a cada 10 indianos, pelo menos 1 é muçulmano. Bastante coisa, não?

Muçulmanos e hindus não se dão muito bem na Índia e existem bairros só de muçulmanos. O próprio Taj Mahal, é uma construção muçulmana, sabia? Mas não é um templo, é uma tumba! Isso mesmo, tem gente enterrada lá!

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Manhã no Taj Mahal

As outras religiões em termos quantitativos parecem irrelevantes mas não são, cheguei a conhecer alguns cristãos e ver sikhs (religião dos homens de turbantes) por toda a parte.

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Sihks, religião dos homens de turbante

Um dado curioso desse gráfico é que sim, apesar do budismo ter sido criado na Índia, apenas 0,7% da população é budista, tendo  um número menor de adeptos até do que o cristianismo!

Assim como a umbanda e o santo daime são religiões 100% brasileiras, do gráfico do começo do post tem 4 religiões indianas: o hinduísmo, o jainismo, o budismo e o sikhismo (ou siquismo).

Pensei em falar de todas aqui mas ficou um post MUUUUITO grande então resolvi que irei fazer um post para cada uma mais pra frente.

Porém, achei interessante adiantar os conceitos básicos e principais práticas que essas religiões têm em comum, principalmente o hinduísmo, jainismo e budismo.

Conceitos básicos

Tomando como ponto de partida a reencaranção, esse é o conceito que os ocidentais têm maior dificuldade de aceitar, por serem católicos/evangélicos ou ateus e é muito comum ver pessoas tratando esse tema com deboche.

Então vamos lá, levantando algumas religiões do mundo todo: católica, proteste, espírita, islã, candomblé, umbanda, hindu, budista e sikh. Apenas 3 dessas 9 religiões não acreditam em encarnação: católica, protestante e o islã. Então deixe o pré-conceito de lado e dê uma atenção aqui.

De acordo com essas religiões, estamos todos sujeitos à um ciclo de morte e renascimento chamado samsara que só é superado quando se atinge a iluminação (ou nirvana ou moksha).

Na maioria das vezes, é tido como uma condição a ser superada. Outras vezes, o termo samsara também é usado como uma forma geral para os pecados do mundo material, como se fosse o termo “Babilônia” dos rastafaris. O termo samsara também é muito usado no livro Siddhartha de Herman Hesse, autor do O Lobo das Estepes.

Ok. Mas aí você supera esse ciclo e vai pra onde?

O caminho para a iluminação é um caminho muito longo que se alcança após inúmeras vidas desenvolvendo a espiritualidade. A iluminação é a superação do sofrimento, do ego e dos apegos da vida, é um estado de total equilíbrio, pureza e paz interior. 

Alcançada a iluminação, não se encarna mais, ficando no outro plano em eterno estado de equilíbrio e paz interior.

E como alcança esse estado?

O dharma é o caminho a ser seguido, a conduta ideal para levar a vida e que leva à iluminação. Cada uma dessas religiões tem o seu dharma, um conjunto de filosofias e práticas para seguir.

Falando em conduta, tenho que mencionar o karma, que nada mais é do que a lei da atração, causa e efeito, o que você faz ou pensa terá efeito no futuro. Boas intenções geram bons frutos, más intenções geram maus frutos. Já viu isso antes? Sim, esse é o conceito básico do livro “O Segredo”.

E através de gerar karma positivo, no ciclo das encarnações, você nasce cada vez com mais condições para atingir a iluminação.

Obs: Claro que essas religiões divergem com esses conceitos, tentei explicar de uma forma básica e geral.

Principais práticas

No mundo ocidental vemos a meditação como algo muito distante. Por onde começar? Onde aprender? Que tipo de meditação seguir? Na Índia, a meditação faz parte dessas religiões e é uma forma de acalmar os anseios e ficar equilibrado (conceito da iluminação). É uma ótima prática para levar a rotina com equanimidade e consciência  (conceito do dharma).

Existem dois tipos de meditação, a com objeto e a sem objeto. A com objeto você pratica o karma, o que quer atrair. Por exemplo, meditar na gratidão, é um sentimento positivo e você certamente atrairá coisas positivas.

A meditação sem objeto é aquela idéia ocidental de meditação que não se pensa em nada. Na verdade você foca em observar sua respiração, as sensações do corpo e dessa forma, esvazia a mente de pensamentos. Uma técnica muito popular desse tipo de meditação é o vipassana, que vou fazer um post mais pra frente.

Mas a prática da meditação também não é só a idéia ocidental que temos de ficar sentado paradinho. Existem outras práticas com os mesmo benefícios da meditação como cantar mantras ou fazer yoga.

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Essa é uma prática budista em que as pessoas caminham concentradas rolando esses “prayer wheels” (rodas de reza) com o mantra “Om Mani Padme Hum” escrito em sânscrito

Mantras são poemas religiosos cantados repetidamente com o intuito de esvaziar a mente e focar na meditação. Os mantras têm mensagem positiva e também são contados com os coquinhos de um colar chamado mala. Muitos mantras usam a palavra “Ohm”.

 

Identificou algo? Pois é, é a mesma prática de rezar “Pai nosso” ou “Ave Maria” contando no terço.

Existem vários tipos de yoga, mas o hatha yoga por exemplo, aquele das posturas que vem a nossa mente quando pensamos em yoga no ocidente, é muito além de um alongamento físico. É uma forma de esvaziar sua mente prestando atenção na respiração e sensações do corpo durante o alongamento.

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Indianos praticando yoga ao amanhecer de frente para o rio Ganges em Varanasi

Para finalizar, o vegetarianismo, praticado nessas religiões é uma consequência do ahimsa, um princípio ético-religioso que consiste em não cometer violência física e verbal à outros seres.

Obs: samsara, nirvana, moksha, dharma, karma, mantra, yoga e ahimsa são todas palavras do sânscrito.

Religiões estrangeiras (islamismo e catolicismo)

Bom, voltando ao gráfico do começo do post, além das 4 religiões indianas, existe uma grande população de muçulmanos, além dos cristãos.

O islamismo chegou à Índia no séc.VII através de comerciantes árabes que chegaram através de navios nas costas dos estados de Kerala e Gujarat para fazer negócios. A partir do séc.VIII, reinos ao norte da Índia foram conquistados por árabes e turcos tendo ápice no séc.XIV, convertendo parte da população.

O cristianismo também chegou pelo mar através de comerciantes, só que portugueses (e franceses) que também foram pra Índia (lembra que eles chamaram os nativos brasileiros de “índios” porque achavam que estavam na Índia?!). Então a maior concentração de cristãos está ao sul e no litoral, nos estados de Goa, Kerala e Tamil Nadu.

Detalhe que essas são duas religiões que não admitem as outras e se impõem como absolutas. Então, quando chegando à um lugar, tende a ter grande influência devido aos esforços para converter os outros e se impor sobre as outras religiões.

Religião x espiritualidade

Apesar de todas essas religiões e termos a imagem de que os indianos são todos espiritualizados. Sinto informá-los que não, os indianos de forma geral não são espiritualizados. O Brasil é um país extremamente cristão, você acha o brasileiro, espiritualizado e/ou honesto?! Pois é…

As religiões hinduísmo, jainismo e o budismo pregam o vegetarianismo e hoje em dia, grande parte dos jovens comem carne, ou seja, não levam a religião à risca. Também apesar do hinduísmo estar por toda a parte e eu ser curioso e interessado pelo assunto, tive MUITA dificuldade de entender e conseguir explicações claras, principalmente vinda dos jovens, que manjam MUITO POUCO.

Mas pensei bem e se um asiático fosse ao Brasil com curiosidade sobre o cristianismo, creio que também teria dificuldades de ter explicações aprofundadas vindo de um jovem, não é? Afinal, apesar do Brasil ser um país cristão, pense no seu círculo de amigos, quantos têm um conhecimento aprofundado sobre a Bíblia?! Pois é…

A questão é a que as religiões estão perdendo força em todo o mundo e creio que isso é algo positivo porque dá espaço para as pessoas interessadas nesse assunto buscarem a espiritualidade de diversas maneiras e oscilarem por diversas religiões.

Não entendeu? Bom, é o seguinte: religião é um dogma e a espiritualidade aceita toda as interpretações entre as pessoas e o que pode ser divino e entende como bem vinda todas as práticas para se desenvolver como pessoa nesse sentido.

Nesse vídeo do Jornalista da Nova Era, ele esclarece melhor:

Voltando ao começo do post, quando me mudei para a Índia, tive grande dificuldade de responder a pergunta: “Qual a sua religião?”. Cada hora eu dava uma reposta diferente, haha.

Creio estar bem claro um despertar nos jovens hoje em dia para o lado espiritual, interesse em yoga, meditação, livros de budismo, espiritismo, umbanda e diferentes práticas para se espiritualizar. A espiritualidade é a religião da nova era!

A espiritualidade é um chamado pessoal e tenho um grande interesse em compartilhar essas informações aqui para contribuir com esse caminho na vida de outras pessoas!

Então aguardem, nas próximas publicações, vou desdobrar alguns deuses hindu, gurus e religiões!

O Cosmopolita

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7 comentários sobre “Introdução à religião na Índia

  1. Acho que com o avanço da tecnologia o cetismo ganhou muita força, mas a liberdade religiosa também. Hoje é de fácil acesso texto das mais diversas doutrinas, lembro que antes disso o único livro que já li de diferente a respeito de religiões asiáticas foi A Terceira Visão de Lobsang Rampa, foi meu primeiro livro sobre budismo.
    Creio que hoje em dia a espiritualidade está ganhando um caminho parecido com o do hinduismo, apesar de ser algo mais livre, sem taxar uma religião, mas as pessoas estão buscando por princípios semelhantes aos hindus. Eu mesmo parei pra pensar em ser vegetariano pela mesma razão, não ferir mais os animais e não alimentar isso.
    Vendo assim só podemos constatar que o hinduismo trabalha desde muito antes ideias que HOJE chegam no ocidente….. Ainda bem que temos internet hahaha.

    Obrigado pelos seus post incríveis, por compartilhar seus pensamentos.

    Curtido por 1 pessoa

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