Os principais deuses do hinduísmo (parte 1/3): Trimurti, Brahma, Shiva e Ganesha

Retomando as publicações sobre espiritualidade na Índia depois desse post. Pensei em começar por diversos pontos mas é inevitável começar com um post esclarecendo quais são os principais deuses do hinduísmo já que vou acabar citando eles.

O hinduísmo é uma religião politeísta, ou seja, se acredita em mais de um deus. Na verdade, além dessa religião ser famosa por considerar a vaca sagrada, tem uma conta que chega em 330 MILHÕES DE DIVINDADES!!!!!! Para ter uma noção, o Brasil inteiro tem 207 milhões de pessoas. Ou seja, tem mais deuses no hinduísmo do que pessoas no Brasil.

Mas afinal quais são os principais deuses?

Trimurti

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Bom, toda a questão da vaca eu já desdobrei aqui e Trimurti é a trindade de 3 deuses hindus: Brahma, Vishnu e Shiva, que representam respectivamente a criação, a conservação e a destruição.

É isso mesmo, Brahma e Shiva no oriente NÃO SÃO NOMES DE BEBIDA, e sim de deuses.

 

 

 

Mas espera… Destruição??? Como pode ser bom um deus gerar destruição?

O papel de Shiva nessa trindade é destruir para que se possa ser recriado, é o fim de um ciclo. É uma destruição positiva… Construtiva! A destruição abre caminho para uma nova criação, uma nova oportunidade… Um novo ciclo! Sem a destruição, não há recomeçoIsso pode ser interpretado como destruir uma fase ruim, destruir uma fraqueza, uma fase da humanidade… Tudo em nome do progresso. Por isso, além de ser o destruidor, Shiva também é o transformador.

Enfim, essa trindade é frequentemente representada por um ser de 3 cabeças (apesar de como vou mostrar mais pra frente, só o Brahma já tem 4 cabeças) e poucos são os templos que dedicam adoração à essa trindade como as ruínas de Elephanta Caves em Mumbai que tive a oportunidade de visitar:

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Escultura da Trimuti nas ruínas de Elephanta Cave em Mumbai

Shiva, Vishnu e seus avatares (vou explicar esse conceito na parte 2 desse post) são muito cultuados e adorados, o hinduísmo assim como qualquer outra religião tem diferentes vertentes. Vishnuísmo e o shivaísmo são as vertentes dos adoradores de Vishnu e Shiva, respectivamente. Ambas possuem muitas ramificações.

Bom, hora de falar de cada um desses três deuses:

Brahma

BRAHMA

Brahma representa a força criadora do universo, essa é sua função em todos os ciclos após a destruição de Shiva. Brahma tem 4 cabeças e é o criador dos 4 Vedas, a primeira  literatura hindu. De acordo com a mitologia, as cabeças ficam recitando os vedas.

Explicando as 4 cabeças:

Brahma é representado com 4 cabeças e de acordo com a mitologia, Brahma inicialmente tinha apenas uma cabeça e criou a partir de seu próprio corpo uma mulher chamada Satrupa com quem ficou apaixonado e criou mais 3 cabeças para vê-la onde quer que fosse. Envergonhada, Satrupa voou e Brahma criou uma quinta cabeça para vê-la nos céus. Os dois formaram um casal e Shiva cortou a quinta cabeça de Brahma após Brahma ter mentido sobre um desafio com Vishnu.

Simbolismo da imagem:

o que parender de BRAHMA
A mala também simboliza a marcação do tempo e a água na jarra é o elemento vital, essencial para a vida

Curiosamente, com o passar do desenvolvimento do hinduísmo, a importância de Brahma caiu, sendo poucas suas passagens importantes na literatura hindu. Fazendo com que Brahma não seja adorado, é apenas aceito como a força criadora do universo.

São pouquíssimos os templos devotados à Brahma, apesar de pequeno, o mais famoso fica na cidade sagrada de Pushkar:

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Templo de Brahma, em Pushkar no Rajastão

Shiva

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Imagem de Shiva em Rishikesh, a capital do yoga (detalhe no tridente)

O nome de Shiva não aparece nos Vedas, a literatura mais antiga dos hindus. Porém, um deus chamado Rudra, aparece nos Vedas com as mesmas características de Shiva como ser uma divindade destrutiva e usar um touro como meio de transporte. Então, muitos estudiosos creem que ambos são o mesmo deus.

O nome Shiva aparece inicialmente na literatura “pós-védica”, no livro Shvetashvatara Upanishad escrito entre 400 a 200 A.C (vou fazer um post sobre esses livros depois), identificado como criador dos cosmos e o libertador das almas do ciclo de encarnações.

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Imagem de Shiva (Nataraja) no Iskon Temple de Delhi

Considerado o Grande Yogi, muitos dos textos de yoga sobre as práticas e filosofia estão escritos em seu nome como o Isvara Gita (“música de Shiva”). Além disso, Shiva é conhecido por ser o deus das dualidades, ele possui características opostas e complementares, como ser o destruidor e pacificador ao mesmo tempo.

O shivismo é uma vertente do hinduísmo que acredita que Shiva é o ser supremo, ele é tudo e está em tudo. Essa vertente também tem suas divisões.

Representação de Shiva:

shiva

É possível reconhecer os deuses hindu facilmente de acordo com algumas características peculiares. Shiva, sempre está com seu tridente, um tambor, uma serpente enrolada no pescoço, água saindo da cabeça e frequentemente está meditando nos Himalaias nas imagens.

  • Tridente: chamado de trishula, o tridente de Shiva é a arma que ele tem para destruir a ignorância da humanidade. Suas 3 pontas representam a inércia, o movimento e o equilíbrio.
  • Tambor: O tambor em forma de ampulheta é chamado de damaru e representa o som da criação do universo, que no hinduísmo, brotou a partir da sílaba “ohm“.
  • Serpente: Shiva tem uma naja enrolada no pescoço, ela é a serpente mais mortal de todas, o que significa que ele dominou a morte e é imortal. No yoga, ela também representa kundalini, a energia de fogo que reside adormecida na base da coluna. Quando despertamos essa energia, ela sobe pela coluna, ativando os chakras (centros de energia), despertando um estado de consciência expandida.
  • Posição de meditação: como dito anteriormente, Shiva é um ícone do yoga e em muitas imagens ele está sentado em posição de meditação.
  • Himalaias: Muitas imagens em que ele aparece meditando, ele está nos Himalaias, especificamente no Monte Kailasha (localizado no Tibet) onde se crê que ele leva uma vida ascética (crescimento espiritual).
  • Água saindo da cabeça: O jorro d’água na verdade é o Rio Ganges. Vou contar essa história em outro post.

Além disso, outras imagens representam Shiva:

Nataraja: Senhor da dança.

 

Lingam: Shiva também é representado na forma de um lingam, que é um símbolo formado por um cilindro (pênis, energia masculina) em uma base chamada yoni (a vagina, o ventre, energia feminina). Esse símbolo está ligado à questão da fertilidade, e em muitos templos hindus, prestam devoção à este símbolo (considerem que a questão da família e de ter filhos é importantíssima na Índia).

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Família de Shiva

Assim como Jesus é filho de José e Maria, os deuses do hinduísmo também têm sua família. Shiva tem sua mulher, Parvati e dois filhos, Ganesha (famoso deus com cabeça de elefante) e Kartikeya (o deus da guerra). Portanto, Ganesha e Kartikeya são representados como crianças ou bebês em muitas imagens.

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Parvati é uma devi (deusa em sânscrito), considerada a filha de Himavat (um deus personificação dos Himalaias). Parvati também está representada na parte yoni do lingam.

Assim como o nome de Shiva não aparece nos Vedas, Parvati também não mas ela é associada as devis Uma e Ambika, citadas nos Vedas. O nome Parvati aparece inicialmente nos livros Ramayana e Mahabharata como esposa de Shiva.

Como Shiva é um deus ascético, que vive isolado em função do desenvolvimento espiritual e Parvati é a filha dos Himalaias, eles vivem nos Himalaias e ainda existe uma região específica chamada de Parvati Valley (o vale de Parvati) no estado de Himachal Pradesh (“território Himalaia” em hindi) onde fica a vila de Kasol, próximo de Manali, muito famosa pelo turismo e trilhas.

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Shiva e Parvati nos Himalaias

Reparem bem nessa foto abaixo. Na montanha que acampei, na vila de KheerGanga (onde eu contei tudo aqui), o nome do primeiro restaurante se chama “Shiva Place”, ou seja, o lugar de Shiva. Acredita-se que Shiva meditou nessa montanha durante 3000 anos.

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Kartikeya é o deus da guerra, muito cultuado na era Védica (tendo imagens nas ruínas de Elephanta Caves e Ellora Caves), hoje, ele é mais cultuado nos estados do sul da Índia e no Sri Lanka. Kartikeya é conhecido por ser um guerreiro filósofo que matou o demônio Taraka.

 

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Estátua de Kartikeya na Batu Caves em Kuala Lumpur, capital da Malásia. Muitos indianos da região sul da Índia migraram para a Malásia. Essa estátua mede 42,7m sendo maior que o Cristo Redentor (30m + 8m do pedestal)

Ganesha

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Ganesha no templo Kapaleeshwarar em Chennai

Primeiro filho de Shiva e Parvati, Ganesha é considerado removedor de obstáculos. Também considerado o deus da boa fortuna, é muito comum de estar em pequenos altares em salas de escritório, para que os negócios prosperem ou os hindus cantem os mantras de Ganesha antes de reuniões/decisões/assuntos de negócios importantes.

Assim como Shiva, seus nome não está nos Vedas, as primeiras referências nos livros hindu sobre Ganesha como “o cabeça de elefante” ou “o de uma presa” aparecem no Veda Yajurveda datado de 1.200 à 1.000 A.C mas o nome Ganesha de fato só aparece no Mahabharata que acredita-se ter sido escrito entre os sécs. 900 à 400 A.C. onde é explicado o porque dele possuir apenas uma presa.

Porque Ganesha só tem uma presa?

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Ganesha escrevendo com sua presa o poema ditado por Vyasa

De acordo com o Mahabharata, um sábio Brahmin (casta dos sacerdotes) chamado Vyasa pediu para Ganesha escrever um poema que ele iria ditar. Ganesha disse que só aceitaria caso Vyasa ditasse sem interrupções/pausas. Durante o ditado, Ganesha quebrou o instrumento que estava usando para escrever, então quebrou uma de suas presas e continuou a escrever com ela.

Ascensão de Ganesha

Os Brahmins determinaram entre os sécs. VI e XIII D.C. que Ganesha seria uma das 5 principais divindades e nesse período, escreveram narrativas mais detalhadas e com mais informações sobre Ganesha nos livros chamados Puranas, como a explicação da sua cabeça de elefante. Foi nesse período que Ganesha passou a ser mais cultuado e usado em cerimônias e suas primeiras imagens só surgiram nos sécs. IX e X D.C.

Porque Ganesha tem uma cabeça de elefante?

De acordo com a escritura Shiva Purana, Shiva ficou muitos anos meditando fora de casa e em determinado momento, Parvati foi tomar banho. Antes disso, ela criou um menino, seu filho Ganesha e o ordenou que não permitisse que ninguém entrasse na casa.

Shiva, chegando em casa, sem conhecer seu filho e sendo desafiado por ele, ficou impaciente e decapitou o garoto. Quando Parvati voltou e viu o garoto morto, disse para Shiva dar vida de volta à ele. Como a cabeça do garoto tinha voado longe, Shiva trouxe a cabeça do primeiro animal que viu, um elefante, e colocou em Ganesha, trazendo-o de volta a vida.

Prefere que desenhe? Lá vai:

Por causa dessa explicação da cabeça de Ganesha, frequentemente é colocada uma imagem de Ganesha nas portas de templos e casas como proteção.

Mushika: o rato vahana (veículo) de Ganesha

No hinduísmo, os deuses possuem um vahana, que é um animal que faz o papel de meio de transporte. Por isso, muitos animais têm grande valor cultural (Escrevi sobre isso aqui).

Enfim, algo que soa estranho para nós ocidentais, é que o vahana de Ganesha, o deus elefante, é um rato! Mas na verdade, existem interpretações interessantes por trás disso.

Uma delas é que como rato é um animal sujo, que tem uma vida clandestina, ele é negativo, representa algo dominado pelo samsara (pecados da vida terrena). Ganesha, montando, guiando o rato, significa o domínio dessas tendências e uma orientação à luz interior e do conhecimento.

 Ganesh Chaturthi: o feriado de Ganesha

Uma coisa que definitivamente é valorizada na Índia são os festivais e feriados sendo um dos maiores, o Ganesh Chaturthi, um festival de 10 dias que acontece entre os meses de agosto e setembro para adorar Ganesha. Vou fazer um post só sobre festivais no futuro.

Simbolismo da imagem:

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O número de braços de Ganesha costuma variar entre 2 e 4. Em algumas imagens, ele está segurando sua presa quebrada na mão inferior direita, outras está com um gesto de proteção.

Ganesha também é relacionado ao Ohm e ao primeiro chackraMuladhara, base da espinha.

No próximo post

Na continuação desse post, vou falar sobre Vishnu, seus avatares e Hanuman, além de contar a epopéia do Ramayana.

O Cosmopolita

 

 

 

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10 comentários em “Os principais deuses do hinduísmo (parte 1/3): Trimurti, Brahma, Shiva e Ganesha

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      1. Eu sempre me interessei muito pela cultura asiática. Como tenho um blog sobre dança já busquei muito sobre Shiva e conhecia um pouco sobre, mas não conhecia nada dos outros, realmente é muito interessante saber, muito bom. Continue com os posts sobre Hinduismo, no Brasil é muito difícil ter acesso a esse tipo de religião, infelizmente.

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