Os principais deuses do hinduísmo (parte 2/3): Vishnu, seus avatares e Hanuman

Dando continuidade a parte 1 desse post, já falei de Brahma, Shiva e sua família. Seguindo com os 3 deuses da Trimurti, sobrou Vishnu:

Vishnu

Vishnu significa a essência que está em tudo e todos. Ele só é citado em apenas 5 hinos dos Vedas escrito à 2000 A.C., onde diz que ele mora no lugar para onde vão as almas e ele protege e separa o céu e a Terra.

Assim como Shiva e Ganesha, Vishnu só ficou popular posteriormente. O “vishnaísmo” só surge nos textos Puranas, como o Mahabharata (que contém o famoso Bhagavad Gita) e  o Ramayana, datado de 500 à 100 A.C.

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Vishnu é representado com uma serpente com várias cabeças mas sua marca registrada é estar segurando em uma das mãos, um disco, e em outra, uma concha. Essa é a forma mais fácil de identificá-lo, veja essa imagem abaixo:

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Estátua de Vishnu no museu de Bangkok, na Tailândia. Atenção no disco e na concha. Apesar da Tailândia ser um país budista, era hindu antes disso e portanto, tem muitos artefatos hindus

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Assim como os deuses que apresentei na primeira parte deste post, Vishnu também tem uma esposa, Lakshmi, e frequentemente eles são representados dessa forma:

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Imagem de Vishnu no Iskon Temple de Delhi

Deusa da fortuna e prosperidade, Lakshmi é citada uma vez nos Vedas e faz parte da tríade de devi’s (deusas) chamada tridevi que tem um dos livros Upanishads dedicado só pra elas, a tríade é formada também por Parvati (citada na parte 1 desse post) e Saraswati.

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Pesquisei o significado de Lakshmi estar lavando (ou massageando) os pés de Vishnu e achei diversas explicações diferentes. Como disse anteriormente, assim como a Índia, o hinduísmo também é caótico e muita vezes tem diversas interpretações de algo então fica difícil achar uma “certa”.

O que achei interessante é que em todas as explicações reforçava que essa questão não tem relação com o sistema patriarcal e machismo mas sem dúvida, reflete a sociedade indiana (que é muito machista), principalmente da época, já que se fala nesses deuses antes mesmo de Cristo.

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Vishnu dormindo, praticando o yoga nidra, o yoga de relaxamento profundo. Detalhe nas cobras acima da cabeça e Lakshmi ao lado de seus pés. Ruínas de Mahalipuram, Tamil Nadu, esculpidas entre os sécs. XI e XII

Conceito de avatar

Avatar é uma palavra do sânscrito que significa uma encarnação de um deus na Terra. Assim como Jesus é filho de Deus e veio para espalhar as palavras de Deus, os deuses do hinduísmo também encarnam na Terra, até mais de uma vez, com um determinado propósito.

Curiosidade: Mas o que o filme e o desenho chamados “Avatar” têm a ver com isso?

No filme Avatar, o personagem principal assume através da tecnologia, um corpo de alienígena do planeta que está sendo explorado. Já no desenho da Nickelodeon, o personagem principal é uma alma com determinados poderes mas ele não é um deus encarnado e não está livre do samsara, o ciclo de encarnações. Ambos tocam na questão de corpo ou encarnação mas nenhum dos dois segue o conceito hindu de avatar.

Entendido o conceito de avatar, Vishnu teve 9 avatares, dos quais 2 são os mais estudados dentro do hinduísmo: Krishna e Rama. Vou falar sobre 4 deles, começando com Narasimha:

Narasimha

Não tem como falar dos avatares de Vishnu e não falar de Narasimha, afinal a ilustração dele matando um demônio com as garras chama muita atenção nos templos e ruínas:

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Imagem de Narasimha matando demônio, do templo Iskon de Delhi

Descrito como tendo cabeça de leão e corpo de homem, Narashimha é o quarto avatar de Vishnu.

Em um de seus avatares anteriores, Vishnu matou um demônio chamado Hiranyaksha. O irmão desse demônioHiranyakashipu (sim, essas nomes são muito difíceis!) era muito ambicioso e determinado. Então, ficou durante muito tempo meditando em nome de Brahma até que ele o atendesse com um pedido.

O demônio queria ser imortal, mas como ele era uma criatura mortal e Brahma não podia dar imortalidade à ele, o demônio fez meio que uma charada: pediu que não poderia ser morto por nenhuma entidade criada por Brahma (o criador), não poderia ser morto nem de dia, nem a noite, não poderia ser morto nem dentro, nem fora de nenhuma residencia, não seria morto por nenhum demônio, semideus ou animal, não poderia estar no chão, nem no ar, nem em nenhuma das quatro direções.

Brahma concedeu seu pedido e o demônio ficou tão poderoso que conquistou o submundo, a Terra e o céu e todos tinham que se submeter a ele. Porém, quando Hiranyakashipu estava meditando para Brahma, seu filho Prahlada nasceu e foi criado por um brahmin (sacerdote hindu) que o educou para ser devoto de Vishnu e cantava para Vishnu sempre, deixava seu pai furioso e insistia em não abandonar sua fé.

Hiranyakashipu mandou matarem seu filho Prahlada de diversas formas mas sua fé era perfeita e Vishnu sempre o ajudava.

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Mesma imagem de Narasimha matando o demônio, na Ellora Caves em Aurangabad, feita entre os sécs.VII e X

Em um certo dia, Hiranyakashipu mandou Prahlada abandonar sua fé, caso contrário ele mesmo iria matá-lo naquele momento. Prahlada não se intimidou e Vishnu se manifestou como Narasimha, saindo de uma das pilastras e lutaram até o final da tarde.

Já não era dia ou noite, Narasimha que não era nenhuma criatura criada por Brahma, animal, demônio, humano ou semideus, sentou-se no meio da abertura da janela, onde não se pode dizer que está dentro, que é o mesmo lugar onde não se pode dizer que está fora. Colocou Hiranyakashipu em seu colo, onde Hiranyakashipu não estava no ar, nem estava no chão, muito menos estava virado para qualquer uma das quatro direções (voltava-se para cima), e então, tendo quebrado todas as condições da benção de Brahma, o estripou com suas garras.

Rama

Sétimo avatar de Vishnu, Rama é muito admirado por ser uma pessoa de conduta exemplar. Tem um livro inteiro chamado Ramayana (com edições de 500 e 600 págs) que é dedicado à sua história, contando sua epopéia mitológica em versos e de fato é muito interessante.

Vou dar uma atenção a mais para Rama para contar sua história aqui:

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Rama nasceu em uma cidade no norte da Índia chamada Ayodhya, no estado de Uttar Pradesh (“UP“), próximo à Delhi e ao Nepal. Filho do rei e com 3 irmãos, entre eles, Lakshman, que será seu fiel escudeiro durante toda a vida. Rama foi educado com os Vedas e treinado para ser um guerreiro onde desenvolveu suas habilidades com arco e flecha, característica muito forte dele. Rama também é descrito como uma pessoa reservada.

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O torneio pela mão de Sita: o arco de Shiva

O rei de uma região que era chamada de Mitila, no norte da Índia propôs um torneio pela mão da princesa Sita, ganhava quem conseguisse levantar e armar o arco de Shiva. Vários príncipes da região compareceram ao torneio mas o arco era muito grande e pesado. Rama levantou o arco e na hora de armá-lo, quebrou o arco, ganhando o torneio.

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Rama com o arco quebrado em mãos, Sita e o rei de Mitila ao fundo

Na tradição indiana, quando um casal casa, a mulher se muda para a casa do marido. Então, Sita volta com Rama para Ayodhya. Sita é vista como um avatar de Lakshmi.

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Estátua de Rama em Rishikesh, a “capital do yoga”. Detalhe no arco e flecha

O exílio de Rama:

Rama era muito querido em Ayodhya e seria coroado rei. Mas uma das esposas de seu pai, chamada Kaikeyi,  influenciada por terceiros, fez com que isso não acontecesse.

Kaikeyi tinha cuidado dos ferimentos do rei no campo de batalha durante uma guerra e prometeu realizar 2 favores para ela que até então nunca tinha pedido. Kaikeyi então pede para que o rei nomeie seu filho (e irmão de Rama) Bharata rei e que Rama seja exilado nas florestas por 14 anos.

Contra a vontade de seu pai e do povo de Ayodhya que tinha grande carinho por Rama, ele parte para seu exílio com Sita e seu irmão Lakshman, sem rancor algum de seu pai pela decisão.

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Rama foi então com sua esposa e seu irmão viver em ashrams (“lugar onde vive um guru”) nas margens de um rio entre os estados de UP e Madhya Pradesh onde viveram de forma humilde no meio da natureza.

O sequestro de Sita:

Os três migraram para a região de Panchavati, próximo a Mumbai. Foi quando irmã do demônio Ravana ficou cativada por Rama, e disfarçada de uma bela mulher, se ofereceu em casamento para Rama. Rama disse já ser casado com Sita, então Shurpanakha, a demônia(?), ataca Sita. Lakshman, para protegê-la, ataca a demônia, cortando seu nariz fora (espero não ter complicado com tantos nomes!)

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Panchavati, no estado de Maharashtra

Ravana, o demônio, vai em busca de Rama para vingar o ocorrido com sua irmã mas fica atraído por Sita e a sequestra. Rama e Lakshman partem em busca de Sita até que encontram Hanuman e os varanas, raça de macacos humanóides da mitologia hindu.

Os varanas habitavam uma montanha chamada Rishyamukha onde acredita-se ser em Hampi, no sul da Índia.

Rama ajuda o rei dos varanas a retomar o seu reino e este em troca, promete ajudar a encontrar Sita. Grupos de varanas são enviados por toda a Índia até que o grupo do sul, liderado por Hanuman, descobre que Ravana morava no reino de Lanka, que hoje é a ilha de Sri Lanka.

Hanuman

Não dá pra falar de Rama sem falar de Hanuman. Além de Vishnu, Shiva também teve avatares, sendo um dos mais relevantes, Hanuman.

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Estátua de Hanuman no templo de Batu Caves em Kuala Lumpur na Malásia

Shiva encarnou como Hanuman para auxiliar Rama a derrotar Ravana. Durante a história, Hanuman demonstra o poder de mudar de tamanho e também de voar.

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É muito comum nas imagens, Hanuman estar abrindo o peito e dentro dele a figura de Rama e Sita. Isso aconteceu quando ele rejeitou um colar de diamentes de Sita e mostrou que o que importava para ele era carregar os dois no peito.

A chegada à Sri Lanka:

Rama queria não só libertar Sita como o povo escravizado pelos demônios e por isso precisava atravessar o mar até Sri Lanka com o exército dos varanas. Sem saber como atravessar, Rama faz preces para o deus do mar que lhe diz que para fazer uma ponte de pedras com seu nome escrito porque dessa forma suportaria o peso de qualquer criatura viva.

Curiosamente, existe de fato uma conexão de 50 km de pedras de calcário que liga o sul da Índia ao Sri Lanka que varia até 10m de profundidade, o que torna impossível andar da Índia ao Sri Lanka hoje em dia mas dizem ter sido possível até o séc. XV. Essa conexão é chamada de ponte de Adam e também é conhecida como ponte de Rama.

Hanuman vai aos Himalaias:

Outra parte interessante dessa história é que em determinado momento da guerra, grande parte dos soldados a favor de Rama estão machucados, então se pede a Hanuman (que tem a habilidade de voar e de mudar de tamanho) para ir à uma montanha nos Himalaias chamada Dronagiri já que lá tem uma planta medicinal capaz de curar ferimentos.

Hanuman vai e volta com a montanha inteira! Essa montanha existe de verdade e só a título de curiosidade, um vôo do Sri Lanka até o aeroporto mais próximo da montanha Dronagiri dura cerca de 6h30.

Final feliz:

Desculpa pelo spoiler mas assim como esperado, depois de uma longa batalha, Rama mata o demônio Ravana, a guerra é vencida e  Sita resgatada. Depois da guerra, Rama, sua esposa e seu irmão voltam para Ayodhya onde Rama é coroado rei e vivem felizes até o final de suas passagens.

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Rama derrotando Ravana

Toda a história do livro do Ramayana está muito bem ilustrada nesse desenho:

 

A ponte Lakshman Jhula

Lakshman, esse nome é bem familiar pra quem já foi pra Índia né?

Jhula significa “ponte” em sânscrito, então “a ponte de Lakshman” é a ponte mais famosa de Rishikesh (a “capital do yoga”) e que atravessa o rio Ganges, que separa a cidade foi construída em 1929 e acredita-se que Lakshman atravessou o Ganges por cipós aproximadamente naquela altura.

3ª e última parte desse post

No próximo post vou falar de Krishna, Buda, os demônios e esclarecer algumas dúvidas pertinentes sobre os deuses do hinduísmo.

Até a próxima!

O Cosmopolita

 

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