O bastão será passado

“Sabe a Primavera Árabe?! Então, tomei um tiro de bala de borracha no rosto, esse dente aqui foi bater no céu da boca, tive uma rachadura no crânio e tive que fazer algumas cirurgias”

Me disse Mahmoud (em inglês), o cara do Egito que se mudou para o apartamento que eu morava, depois que eu perguntei de um sinal que ele tem no rosto.

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Nascido em Barém, pequeno país no Oriente Médio e criado com orgulho no Egito, Mahmoud, 24 anos, é muçulmano praticante e ainda mais jovem foi ativista político durante a Primavera Árabe no Egito em 2010.

Mahmoud chegou a acampar na  praça principal de Cairo, capital do Egito, onde fez parte de uma multidão de um milhão de manifestantes que exigiam reforma política e em uma das manifestações, foi atingido por uma bala de borracha na boca.

A Primavera Árabe começou na Tunísia e se espalhou por todos os países árabes do norte da África e muitos no Oriente Médio onde os manifestantes lutavam pelo fim de longas ditaduras com graves casos de corrupção.

O presidente do Egito, Hosni Mubarak, renunciou ao cargo em 2011 após 30 anos no poder, foi condenado à 3 anos de prisão e teve que pagar uma multa de milhões de dólares por desvios de dinheiro e outros processos que foi julgado.

A Primavera Árabe foi em 2010, as manifestações no Brasil dos “20 centavos” foram em 2013 que creio ter sido um despertar no Brasil, onde a partir de então passou a se falar de política na jovem democracia brasileira.

Se o Brasil está do jeito que queríamos?! Nesse momento está claro que não mas apesar de toda a revira-volta política dos últimos anos e dos retrocessos do atual governo interino, creio que no passinho de formiga, pouco a pouco a coisa vai melhorando.

A Primavera Árabe começou em 2010, os protestos na Espanha foram em 2011, os “20 centavos” foram em 2013 e na Índia, um presidente foi eleito em 2014 depois que um mesmo partido ficou no poder desde a independência da Índia em 1947.

É o século XXI, é o despertar, gosto de ver o mundo com otimismo, creio que a humanidade mesmo que lentamente, caminha rumo a prosperidade, a nova geração já não pensa como as anteriores e logo logo o bastão será passado, seremos aqueles que votam, aqueles que estão lá nos cargos políticos, além de diretores de empresas privadas e organizações públicas. O bastão será passado.

O Egito aturou Mubarak por 30 anos e seu caso já nos faz lembrar alguns políticos que foram presos na Lava Jato. Mahmoud disse que o atual presidente tem muita cautela nas decisões que toma depois desse grande levante popular.

Quero acreditar que seguiremos um novo rumo. Egito e Índia trocaram de líderanças políticas depois de muito tempo, depois das manifestações na Espanha, novos partidos políticos como o Podemos surgiram e assim creio que o Brasil vai mudar, demandamos uma nova política.

Claro que a nova geração não tem 100% de mérito nessas mudanças mas conhecendo pessoas como Mahmoud, e apesar de não concordarmos em tudo, sei que o mundo estará em boas mãos no futuro. O bastão será passado.

O Cosmopolita

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A inclusão de deficientes visuais na Índia

O projeto Retratos:

Depois de desenvolver essa idéia abaixo, foi que O Cosmopolita resolveu registrar algumas situações com pessoas aleatórias e ilustrar com um retrato:

Quero sair por aí e olhar as pessoas sem julgar. Quero olhar no olho de cada um e enxergar nossas semelhanças, enxergar um semelhante. Olhar de igual pra igual. Olhar nos olhos e reconhecer que cada um tem suas qualidades. Quero estar sempre pronto para dar atenção devida para as pessoas. Vou sorrir para as pessoas sem esperar retorno. Até para as pessoas que são julgadas como as mais insignificantes. Afinal, insignificante de verdade é o orgulhoso, o vaidoso. Eu? Eu preciso aceitar que não sou melhor que ninguém. Vou distribuir afetos sem pedir nada em troca. Quero vencer o orgulho. Quero vencer a vaidade. Quero vencer meu ego e suas armadilhas.

Só quando eu chegar lá, vou voltar para casa. Minha guerra é interna.


 

“Nasmastê sir, how are you?”, “I’m fine”, costumavam ser uma das poucas frases que Lakul sabia em inglês, em nossos curtos diálogos durante alguns segundos no elevador.

Na Índia, a questão da falta de saúde é bem evidente. Os idosos são obesos e têm muita dificuldade de andar, em lugares turísticos é comum ver pedintes sem alguns membros…

Porém, uma coisa positiva e interessante da Índia é que eles conseguiram resolver um problema de forma simples, incluíram os deficientes visuais com a seguinte ocupação: assistente de elevador. 

Ou seja, em muitos prédios, fica um deficiente visual que leva as pessoas até o andar desejado. No bloco do prédio que morei em Ahmedabad, o responsável por essa tarefa era Lakul, da foto abaixo, que eu convivi quase que diariamente durante 8 meses no elevador do prédio em que morei.

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Foto bem representativa: Lakul no seu ambiente de trabalho. Lente: 50mm Exposição: 1/125s Abertura: f/2 ISO: 400

Existe uma associação de deficientes visuais que creio que se responsabiliza por transportá-los até seus respectivos locais de trabalho.

Lakul, sempre de bom humor, durante nossas convivências em seu ambiente de trabalho, o elevador do prédio, ele sempre estava aberto a uma curta conversa que tentávamos fazer mesmo com a barreira do idioma e adorava quando eu trazia chai tea ou amendoim da rua para ele.

A foto é meio cabreira porque o assunto não deixa de ser delicado. Pedi para tirar essa foto dele antes de me mudar para registrar esse choque cultural que marcou para mim. Entre muitos problemas de um país com menos infra-estrutura como a Índia, está aí uma iniciativa interessante, uma forma de incluir e gerar renda aos deficientes visuais.

O Cosmopolita

A corrente foi passada

O projeto retratos:

Depois de desenvolver essa idéia abaixo, foi que O Cosmopolita resolveu registrar algumas situações com pessoas aleatórias e ilustrar com um retrato:

Quero sair por aí e olhar as pessoas sem julgar. Quero olhar no olho de cada um e enxergar nossas semelhanças, enxergar um semelhante. Olhar de igual pra igual. Olhar nos olhos e reconhecer que cada um tem suas qualidades. Quero estar sempre pronto para dar atenção devida para as pessoas. Vou sorrir para as pessoas sem esperar retorno. Até para as pessoas que são julgadas como as mais insignificantes. Afinal, insignificante de verdade é o orgulhoso, o vaidoso. Eu? Eu preciso aceitar que não sou melhor que ninguém. Vou distribuir afetos sem pedir nada em troca. Quero vencer o orgulho. Quero vencer a vaidade. Quero vencer meu ego e suas armadilhas.

Só quando eu chegar lá, vou voltar para casa. Minha guerra é interna.


Foi no dia que eu tirei as fotos desse post.

O Eduardo nos chamou do outro lado da rua. Já havia esquecido que no caminho de ida até a mesquita ele tinha falado que ia parar ali para comer na volta.

Atravesso a rua com a Thaís, entramos debaixo do barraco de lona e ele está sentado em uma daquelas camas indianas:

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Esse tipo de cama de fio trançado é muito comum ver na Índia, principalmente nos barracos das pessoas que vivem na rua

Estava uma mulher e seus 2 filhos, Eduardo sentado comendo com um pratinho, assim que entrei com a Thaís, a mulher já abriu um sorriso, providenciou lugares para a gente sentar e humildemente, nos ofereceu comida.

A Thaís recusou com medo de pegar food poison (que de fato, é um grande risco para os estrangeiros quando não se sabe a procedência da comida), eu já fui na onda do Eduardo e resolvi correr o risco. Enquanto a mulher me servia, seu filho com um celularzinho, filmava tudo o que acontecia, eles adoram estrangeiros. Numa bobeada que ele deu, tomei o celular da mão dele e me filmei com ele fazendo tipo um selfie, tirando a maior onda com o moleque.

Comida servida, era chapati com molho de batata e outros vegetais, é tipo o arroz/feijão indiano:

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Não estava como o da foto, mas estava delicioso, como uma boa comida caseira (vou fazer um post sobre comida indiana mais pra frente).

Chegou o marido dela e entre poucas palavras em comum em inglês e hindi, alguns gestos, tentamos estabelecer uma comunicação com aquela família. Apesar da barreira da comunicação, a mulher transbordou humildade e gentileza. Fomos muito bem recebidos naquele barraco à margem de uma rua movimentada do centro de Ahmedabad.

Se tem uma coisa que eu admiro no povo indiano é a disposição para ajudar o próximo e o jeito pacífico deles, ver alguém brigando na rua aqui é muito raro, conseguir ajuda aqui (principalmente sendo estrangeiro) é muito fácil. Essas qualidades do povo indiano me deixam além de intrigado e admirado, contagiado com o gesto e a vontade de retribuir a alguém. É uma corrente.

Depois que comemos, pedi para tirar uma foto daquela mulher linda e sorridente. Que atrás da lente de 50mm, inibiu levemente seu sorriso, escondendo os dentes mas seus olhos de jabuticaba denunciaram o brilho de quem tem pouco (ou quase nada), mas compartilha.

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Detalhe no teto baixo de lona

Lente 50mm Exposição: 1/400s Diafragma: f/2.5 ISO: 640

Apesar de todo o romantismo na descrição da situação, não ficamos nem 15 minutos ali. A cena foi rápida, mas marcante. Agradecemos e seguimos caminho, ainda tínhamos uns lugares que queríamos passar antes de ir pra casa. Estava corrido.

Evidentemente, eu senti a humlidade daquela familía, mas foi depois, no exercício de colocar essa vivência no papel, que senti não um dever mas uma motivação particular em repassar essa gentileza, esse ato de bondade. Gentileza gera gentileza, disse o profeta. A corrente foi passada. “You may say I´m a dreamer…” mas se reclamamos tanto desse mundo, do Brasil,  eu vejo que de pouco em pouco, de pessoa pra pessoa, de mão em mão, contagiando aqueles ao seu redor. Que se pode fazer desse mundo, um lugar melhor.

“Se todos dermos as mãos, quem sacará as armas?”

Robert Nesta

O Cosmopolita

Krishna Krishna hare hare

O projeto retratos:

Depois de desenvolver essa idéia abaixo, foi que O Cosmopolita resolveu registrar algumas situações com pessoas aleatórias e ilustrar com um retrato:

Quero sair por aí e olhar as pessoas sem julgar. Quero olhar no olho de cada um e enxergar nossas semelhanças, enxergar um semelhante. Olhar de igual pra igual. Olhar nos olhos e reconhecer que cada um tem suas qualidades. Quero estar sempre pronto para dar atenção devida para as pessoas. Vou sorrir para as pessoas sem esperar retorno. Até para as pessoas que são julgadas como as mais insignificantes. Afinal, insignificante de verdade é o orgulhoso, o vaidoso. Eu? Eu preciso aceitar que não sou melhor que ninguém. Vou distribuir afetos sem pedir nada em troca. Quero vencer o orgulho. Quero vencer a vaidade. Quero vencer meu ego e suas armadilhas.

Só quando eu chegar lá, vou voltar para casa. Minha guerra é interna.


Era meu segundo mês em Ahmedabad, ainda tudo novo e eu com um check-list de lugares para visitar na cidade. Por indicação de uma pessoa no Brasil e também por ser um lugar turístico da cidade, fui à um templo Iskcon. Também conhecido no Brasil como Hare Krishna devido ao seu principal mantra, o Iskcon é uma das principais vertentes da religião Hindu na Índia, e seus templos costumam ser muito bonitos.

(Vou fazer um post só sobre Iskon mais pra frente)

Ok. Lá estava eu indo de rickshaw (tuk tuk) para o templo, era domingo, estava sozinho e sem pressa. Chegando lá dei uma olhada com atenção na arquitetura da parte externa do templo, caminhei ao redor observando tranquilamente, o dia estava lindo.

Foi ai que conheci com essa figura:

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Uma dos motivos da tinta no meio da testa é ter visitado um templo no dia (detalhe na estátua de Krishna no fundo)

Lente 50mm Exposição: 1/1000s Diafragma: f/4.5 ISO: 250

Não sei o nome dele, os indianos adoram estrangeiros e as pessoas de um templo tem interesse em propagar seus dogma religioso, e eu vim pra cá também para conhecer a cultura indiana, logo, o interesse foi mútuo. Ele estava distribuindo pratinhos de arroz para os visitantes com o resto do pessoal que frequenta o templo. Aceitei, e depois ele pousou para essa foto e me levou para um tour no templo.

Me mostrou o prédio onde a comunidade mora e a sala da meditação. Entramos no templo pelos fundos sem pegar a fila do lugar para deixar o calçado, simplesmente deixamos na escada da porta dos fundos (rs!).

Templo lindo, muito colorido e cheio de pinturas sobre a história de Krishna. Fui observando uma à uma com atenção, conheço um pouco do que se trata por já ter lido um livro resumido do Gita, a “Bíblia do Iskon”.

Ele foi me acompanhando e me mostrando o templo, as pinturas, as esculturas, os pilares, o altar, os instrumentos, fazendo comentários… Até que paramos de frente para uma parede escrita no alto: Iskcon around the world (ou seja, o Hare Krishna em outros países do mundo). E lá estava foto de templos em outros países do mundo.

Ele foi me apontando alguns e eu abri um sorriso. Saquei meu celular e mostrei essas duas fotos:

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Apenas alguns meses antes eu havia visitado a Fazenda Nova Gokula em Pindamonhangaba no interior de São Paulo (onde comprei o Gita resumido), a maior comunidade Iskcon da América Latina (com pouco mais de 100 pessoas) e ainda tinhas essas fotos no celular.

Ele fez uma cara de surpresa e alegria ao mesmo tempo, quase deu um pulo pra trás!

Resultado, em alguns minutos começou o a cerimônia que canta o mantra do Hare Krishna e lá estava eu no meio da “banda” com um pratinho de percussão, marcando o tempo, cantando e pulando junto “Hare Krishna, Hare Hare Krisnha, Krishna, Krishna, Hare hare!”

Observação: o cara da foto não falava inglês, só nos comunicamos com gestos.

O Cosmopolita