Como eu me tornei vegetariano na Índia

Choques culturais provocam choques de valores… E mudança de hábitos também! Talvez essa seja uma das coisas mais loucas de viajar.

Isso mesmo. Durante minha estadia na Índia adotei o vegetarianismo (ou quase isso). Mas falando assim, parece que foi um processo rápido. Não foi. Vou explicar aqui passo-a-passo como me tornei um vegetariano:

1) Família vegetariana

Desde que nasci, minha mãe é vegetariana então sempre tive esse exemplo em casa e entendia esse tipo de alimentação como totalmente normal e nenhum absurdo. E de uns anos pra cá, meu irmão mais velho se tornou vegetariano, acompanhei por cima (já que morávamos em cidades diferentes) como ele se alimentava tentando entender um pouco essa mudança. Foi então que nos churrascos de família, passou a ser apenas eu e meu pai de olho nas carnes na churrasqueira.

2) Idas a restaurante vegetariano

Apesar da mãe vegetariana, jovem é sempre cabeça dura. Então foi um amigo que me levou certa vez para almoçar em um restaurante vegetariano depois do cursinho pré-vestibular. Fiquei impressionado como as refeições daquele restaurante não pesavam na barriga e não ficava com aquela indisposição depois do almoço, digerindo a carne. Gostei do hábito e vez ou outra, sentia que caía bem, almoçar em um restaurante vegetariano.

3) Redução do consumo carne

Mas foi só no último ano da faculdade e no ano posterior, onde estava cozinhando a maioria das minhas refeições que resolvi que não iria comer carne todos os dias. Então tive uma redução boa do consumo de carne.

4) Mudança para Gujarati na Índia

É agora que a Índia entra na história! Em Gujarati, para ser mais específico, estado onde Gandhi nasceu e passou parte de sua vida. Gujarati é tido com um estado religioso (hindu) e conservador na Índia. O que quero dizer é que lá, as pessoas seguem o hinduísmo a risca e portanto, são vegetarianas.

Com uma demanda baixa por carne, a carne de búfalo não fica tão fácil de achar. Então, assim que mudei para lá, não tive escolha e cortei a carne bovina. Mas sinceramente não me fez falta, já que tinha frango pra todo lado. Apesar de não comer todos os dias.

5) Cortei o frango

Depois de oito meses na Índia, comendo frango cerca de 3x por semana, sem nenhum tipo de crise de abstinência de carne, senti que não tinha nada a perder e foi então que aproveitei que estava na Índia para fazer um experimento de como é ser vegetariano e resolvi cortar o frango de vez! Esse passo foi muito fácil já que a maioria dos lugares só tem comida vegetariana e eu estava disposto à essa mudança.

Então, voltando do último revéllion de Goa, terminei o frango congelado no freezer e de lá pra cá, estou sem comer carne de vaca e sem frango.

Documentários

Para me engajar no assunto, resolvi assistir alguns documentários para me informar melhor sobre a causa e estilo de vida que estava aderindo, então vou listar aqui abaixo alguns documentários de forma que eles seguem uma linha de pensamento:

(Se quiser, pule para a conclusão)

1) Cowspirancy

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Talvez o documentário mais famoso, o Cowspirancy é um documentário investigativo produzido por Leonardo DiCaprio e dirigido por Kip Andersen que após assistir o “Verdade inconveniente” do Al Gore resolveu fazer sua parte em pequenos atos em casa como economizar água, energia e ir de bicicleta para o trabalho se tornando o que ele chama de Ambientalista Obsessivo-Compulsivo.

Foi então que ele leu uma matéria que um amigo postou no Facebook dizendo que a criação de gado gera mais gases de efeito-estudo do que as indústrias e resolveu investigar o assunto.

Kip concluiu que o grande inimigo da sustentabilidade é a indústria pecuária já que peido de vaca (isso mesmo!) polui mais do que as indústrias e transportes, além de exigir uma grande área para gado pastar, cultivar grãos para servir de ração para o gado e os dejetos de gado serem um grande poluente de rios e lençóis freáticos.

Kip visita as principais ONGs relacionadas à proteção do meio ambiente e nenhuma delas menciona a questão do gado. É então que ele percebe que na verdade, elas são patrocinadas pelas principais empresas de carne e também entende o perigo de bater de frente com essas grandes organizações.

O documentário conclui afirmando que com o crescimento da população mundial, é insustentável uma dieta diária com carne para todas as pessoas do mundo já que o planeta não tem área suficiente para gado pastar e cultivar sua ração para atender essa demanda, além da criação de gado ser o maior problema ecológico devido ao desmatamento e poluição do ar e da água.

Esse documentário está disponível no youtube e no Netflix.

2) Forks over knives

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Esse documentário começa com um apelo mostrando as estatísticas de que 1/5 das crianças americanas são obesas e essa deve ser a primeira geração com uma expectativa de vida menor que a anterior.

O documentário se baseia em entrevistas com dois médicos americanos referência em pesquisa sobre o assunto que afirmam que diabete, câncer, além de outros problemas relacionados à saúde são consequência de comer carne.

Expõem a questão da indústria farmacêutica que ganha muito dinheiro com diabete e câncer. “Alguém tem que dizer que para resolver o problema não é outra pílula, e sim, espinafre!” menciona o documentário que também cita Hipócrates (pai da medicina): “que a comida seja seu remédio”.

Também é desdobrado o MITO de que a proteína só tem na carne e que vegetarianos são deficientes em proteína. O colesterol, por sua vez, só tem em carne e laticínios.

O documentário mostra pesquisas feitas na China, Filipinas, Havaí e mostra médicos que tratam pacientes com dieta vegetariana e os resultados que tiveram. “Temos duas opções: você pode comer até ficar doente e morrer cedo ou pode comer e viver uma vida longa e saudável e esse caminho é feito com uma dieta vegetariana”.

Disponível no Netflix.

3) What the health

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Sequência do Cowspirancy, dessa vez, Kip Andersen que já teve familiares mortos por câncer e diabete, resolveu investigar a influência da alimentação na saúde.

Há 50 anos existem estudos que apontam carnes processadas (salsicha, presunto, salame, peperoni) como alimentos cancerígenos do grupo UM e a carne vermelha como grupo DOIS, assim como o cigarro!

Diabete NÃO é causada por açúcar e sim por gorduras e toxinas de carne e laticínios.

Kip vai atrás de ONGs que lidam com câncer e diabetes, vê que elas recomendam carne na alimentação e percebe que também são patrocinadas por grandes empresas dessa indústria. Ou seja, são patrocinadas por empresas que causam os problemas que elas combatem.

Desmente o MITO da proteína, proteína vem dos vegetais e não existem casos de deficiência de proteína.

Mostra exemplos de pessoas se entupindo de remédio para tratamento que apenas manipulam os sintomas mas não curam as doenças e elas tomarão os remédios até morrer. A indústria farmacêutica é muito lucrativa e grandes empresas desse ramo também financiam as ONGs relacionadas com câncer e diabete.

Mostra caso de pessoas que trocaram os remédios por dieta vegetariana e melhoraram de forma relevante na saúde e tratamento de suas doenças. Cita médico que tratou muitas pessoas nos anos 40. Porque os médicos não falam disso? Porque isso não é ensinado nas faculdades de medicina, e as empresas farmacêuticas foram ativamente contra a educação de médicos sobre nutrição.

Esse documentário está disponível no youtube e no Netflix.

4) Food matters

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Documentário feito com entrevistas muito claras de médicos e pessoas engajadas. Nesse documentário desdobra mais ainda a questão da alimentação, também afirma que câncer e diabete são consequências do consumo de carne e que “boa saúde faz sentido mas não faz dinheiro” e a indústria farmacêutica ganha muito dinheiro com remédios e cirurgia e etc.

É afirmado que uma dieta com super-alimentos (adoro esse termo) é mais barata e mais saudável, a diferença na disposição física, saúde da pele, do cabelo é notável. Além da maior imunidade à doenças.

Esse documentário também mostra dados de pacientes em estados avançados de câncer, conseguem curar-se adotando uma dieta vegana.

Disponível no Netflix.

5) Earthlings (Terráqueos)

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Documentário de 2005, um dos mais antigos tratando essa questão. O Earthlings começa expondo o conceito de especismo que significa que o homem se acha no direito de explorar e matar outras espécies por considerá-las inferiores. O documentário é dividido em 5 partes: animais de estimação, comida, pele para roupas, entretenimento (circo, zoológico) e ciência (experimentos).

O que nos interessa aqui é a parte 2: comida. Esse documentário é o que tem imagens mais fortes, ele desdobra toda a questão das condições que os animais são criados, transportados e como é o abate. Os porcos por exemplo, vários processos dolorosos são feitos sem anestesia, ficam doentes, praticam canibalismo, seus dejetos contaminam o solo. Mostra as vacas leiteiras, as galinhas que produzem ovos… “Se você come, você é cúmplice”.

Disponível no youtube.

6) A carne é fraca

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Documentário brasileiro também de 2005, sustenta a tese que o consumo de carne é o maior problema social e ambiental do planeta, que mostra uma série de entrevistas e abrange todas as questões relacionadas à esse tema: crueldade dos abatedouros, o câncer, MITO da proteína, problemas ambientais e o especismo.

Problemas ambientais e sociais: Desmatamento para criar gado (“Ficar olhando foto de queimada da Amazônia é igual ficar olhando a febre. Doença é a queimada e doente é quem come carne”), infiltração de dejetos nos lençóis freáticos, grande consumo de água para animais que vão ser abatidos. Se ao invés de produzirem ração para gado, plantassem comida, não existiria fome no mundo.

Câncer: “não se tem notícia de câncer em animais herbívoros, esse é um sinal importantíssimo para o homem repensar sua alimentação”.

Proteína: “Quem tem escassez de proteína? Eu não conheço ninguém! O que tem é excesso de gordura!” (causado pelo consumo de carne).

Abate: “Porque não permitem que visitem e gravem cenas nos abatedouros? Porque realmente o que acontece lá dentro são coisas muito chocantes!” Esse documentário tem algumas cenas fortes.

Especismo: O abuso do poder sobre os animais é usado da mesma forma com os escravos no passado, dizendo que eles não pensam e não tem sentimentos. Na indústria, eles não sabem quem são, nunca conhecerão a mãe e são tratados como coisas durante o processo. Os animais tem muitas qualidades e o que eles têm para nos oferecer em termos de companhia e afetividade é uma coisa maravilhosa.

Disponível no youtube.

Conclusão

Claro que ainda tem outros documentários, mas a partir desses já dá para ter uma idéia boa dos malefícios de comer carne e as principais questões levantadas pelos vegetarianos. Se me perguntar, sugiro começar pelo Food Matters e o Forks over kives.

Vou pontuar aqui o que absorvi:

  • A primeira questão creio ser a insustentabilidade do consumo de carne que demanda espaço tanto para a criação dos animais quanto para plantar os grãos que servem de ração, esses animais demandam um grande consumo de água e gera desmatamento para essas áreas, além do peido de vaca (rs!) ser o principal poluente do ar e os dejetos poluírem a água.
  • Fica claro que o consumo de carne está relacionado com câncer, diabete, colesterol, obesidade e menor imunidade do organismo. A questão da falta de proteína em uma dieta vegetariana é UM MITO! Fiquei impressionado com os casos de pessoas se curando de doenças depois de cortar o consumo de carne. Sem falar que uma dieta vegetariana É MAIS BARATA.
  • Devemos rever nossa relação com os animais, a indústria da carne é de fato muito cruel e as condições dos animais são bizarras.

“Se os abatedouros tivessem paredes de vidros, seríamos todos vegetarianos”

John Lennon

Mudança de hábito

Claro que tenho amigos carnívoros que NÃO ACEITAM uma dieta vegetariana, não conseguem ver um porquê nisso tudo. Mas é uma questão de mudança de hábito, exige interesse, informação, cabeça aberta e força de vontade.

Não é que o sabor da carne não agrada meu paladar, no Laos tinha churrasco à cada esquina e confesso que passei vontade sentindo aquele cheiro. Mas depois de entender que eu não preciso e ao me acostumar com uma dieta vegetariana, ficou simples.

Não sei até que ponto “carne é bom” é um argumento. No livro “Milagre nos Andes” sobre um time de rugby do Uruguai que caiu de avião nos Andes, eles praticaram canibalismo comendo os amigos mortos para sobreviver e descrevem a carne humana tão boa quanto a bovina.

Enfim, é uma mudança de hábito… Não é simples. Exige força de vontade.

Experiências viajando

Tenho duas experiências que tive viajando que gostaria de compartilhar para desconstruir ainda mais o consumo da carne:

1. O maior contato com o abate

Tanto na Índia/Nepal quanto sudeste asiático, se você quiser comer carne, muitas vezes você tem que ir no açougue onde as carnes vão estar penduradas cruas sem nenhuma higiene ou o açougueiro vai matar e limpar o animal (como uma galinha) pra você na hora:

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Açougue em Kathmandu, Nepal

É aí que muitos ocidentais ficam com nojo ou não querem comprar carne nesses lugares porque não querem ver ou financiar a morte do animal ali. Quando você entende como as coisas realmente acontecem, a ficha cai. Hoje em dia, estamos acostumados a comprar a carne prontinha na bandeja do supermercado e não temos noção nenhuma dos processos que levaram para aquela carne está ali. Das condições do animal, do abate, de como limpam e acabamos consumindo de uma forma intuitiva e imposta pela cultura.

2. Culturas que comem animais diferentes

Não cheguei a ir pro Camboja, mas lá, assim como na China, come-se carne de cachorro. Cheguei a ouvir várias vezes, comentários de mochileiros que se assustaram quando foram para esses lugares e acharam horrível ver o comércio de carne de cachorro.

Aí eu pergunto se a pessoa come carne e ela diz que sim. Sério, tem hipocrisia maior que essa? Que tipo de seletividade é essa? Vaca e porco tá podendo mas cachorro não? Porquê? Nenhum deles conseguiu me responder.

Não me venha com esse papo de protetor nutella dos animais…..

 

Qual minha expectativa para o vegetarianismo na minha vida?

É… A Índia acelerou meu rumo ao vegetarianismo, ter morado em um país vegetariano me deu outra percepção.

Bom, já estou 1 ano e 2 meses sem comer carne de vaca e porco e 8 meses sem comer frango e a idéia é não ter volta. Ainda como peixe e camarão vez ou outra, e como ovo. AHÁ! ENTÃO VOCÊ NÃO É VEGETARIANO P0#R@ NENHUMA!!!!

Como disse no item 5, tudo começou com um experimento. Tive a disposição de fazer esse experimento e senti que não tinha muito a perder. De qualquer forma, a idéia é cortar o peixe e o camarão em breve.

Ainda estou na dúvida do quanto radical se precisa ser, tenho adotado o caminho do meio para muitas coisas na minha vida. Ainda não sei se é preciso ser radical ao ponto de NUNCA MAIS comer carne, não comer o feijão do restaurante porque tem carne no meio e situações do tipo… Mas quanto mais eu vou me informando sobre o assunto, menos tenho interesse em comer carne.

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Ainda não sou 100% vegetariano, mas de fato, ter morado em Gujarati foi coisa do destino. Como disse lá em cima, choques culturais (como o do açougue) levam a choques de valores… E mudanças de hábitos!

Então, eu tenho levado essa dieta “pescetariana” numa boa, estou conseguindo manter essa alimentação mesmo fora da Índia. Tem me feito bem, me sinto leve, com consciência limpa, mais alinhado com a natureza e bem comido. E seguirei assim…

 

É, pai. Agora é só você de olho nas carnes da churrasqueira…….

O Cosmopolita

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O papel em branco

(pegando um gancho no post anterior)

Suponha que sou uma folha de papel em branco

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Eu escolhi morar em um país menos desenvolvido que o Brasil justamente para eu ter a oportunidade de me testar. E através disso, me esboçar, me reescrever, me amassar, desamassar e amassar de novo até o ponto que de tanto rabiscos, de tantos amassados, levar comigo diferentes conteúdos, passar por diferentes formas.

Os escritos apagados são as idéias que não sigo mais, amadureci outras. Os escritos legíveis são as idéias reafirmadas. Os amassados são resquícios de uma pessoa que não existe mais. Porém, as cicatrizes estão ali, já assumi diferentes formas, tenho que permitir me reinventar.

O mais importante de tudo isso é saber que vou sempre poder me reescrever e me moldar do jeito que achar preciso. Afinal, já dizia o poeta: “eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Independentemente de onde eu estiver ou do que estiver fazendo. Vou me escrever e reescrever até esse lápis chamado vida acabar.

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E sigo escrevendo e me reescrevendo…

O Cosmopolita

Expandindo a bolha

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Cena do filme O Show de Truman, com Jim Carrey

Se definirmos “bolha” como um limite de informações com que cada um vive sua vida, cada um tem uma bolha, cada uma de um tamanho.

Estamos sempre expandindo nossa bolha pessoal, nosso limite de informações. Estamos sempre adquirindo novas informações de diversas áreas de conhecimento, seja ele técnico, filosófico, espiritual, político, atualidades, hobbies… Etc. Ou seja, estamos sempre adquirindo novas informações conforme vamos atrás delas ou através de vivências.

Porém, apesar de atualmente vivermos na era da informação, existe tanta informação disponível que de fato, a grande maioria das pessoas tem dificuldade de sair do seu mundinho e expandir sua bolha.

Porque você tá falando disso?

Esse é um blog de viagens, certo?!

Sem dúvidas, viajar é uma ótima forma de expandir sua bolha, ter vivências em outras culturas é possível sair da zona de conforto, se colocar em situações fora de controle, situações inusitadas, perrengues. E, por fim, compreender novos pontos de vista.

Como escrevi aqui, esse é um dos principais motivos para eu ter ido morar na Índia.

O Show de Truman

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No filme, O Show de Truman. O personagem principal interpretado por Jim Carrey, após sentir que a vida era mais do que aquilo que vivia, resolveu ir ver os limites da vida que levava, velejou pelo mar e descobriu o limite da “bolha” onde nasceu e foi criado como personagem de um reality show durante toda sua vida.

Cada um de nós é o personagem principal do seu próprio show, onde diversos fatores externos te forçam a ser de um determinado jeito, de seguir um determinado caminho.

É… Esse filme dá margem para muita interpretação.

Onde você quer chegar?

Reflita sobre as seguintes perguntas:

  • O quão pequena é a sua bolha?
  • Você é como gostaria de se expor? Seja na forma de agir, de se vestir, etc.
  • O curso que você faz ou sua profissão é aquilo que você realmente se vê fazendo? Sinceramente, você segue seu coração?
  • Até que ponto que você vai atrás de informações relevantes?
  • Até que ponto você se coloca em situações que pode aprender algo relevante? Pense em 3 situações passadas.
  • O que você sabe sobre você?
  • Até que ponto você se coloca em situações para se conhecer melhor? Pense em 3.

Não que você precise ir morar na Índia para expandir sua bolha e se conhecer 100% mas não se limite, busque sair da bolha, busque ser você. SIGA SEU CORAÇÃO!

Na imagem, Truman tinha acabado de quebrar um paradigma na sua vida. Vá além, seja o Truman e faça da sua vida um verdadeiro show.

The Truman Show (1998)

“Se a gente não se ver, bom dia, boa tarde e boa noite!”

Truman Burbank

O Cosmopolita

Toda história tem graça quando é passado

Foi na volta do meu primeiro trekking na Índia. Estávamos descendo os Himalaias. Éramos apenas eu e o Chris, Chris e eu, alemão que trabalha comigo. Chris teve que me aturar durante 5 dias.

Melhor que Batman & Robin e Sherlock & Watson

Nunca tinha viajado com outro fotógrafo. Dois amantes da fotografia. Foi bom que dessa vez eu não fiquei para trás do grupo tirando fotos, já que meu grupo era só eu e outro fotógrafo.

Creio que nossas personalidades fizeram uma boa dupla. Um, pró-ativo, organizou a trip, mais comunicativo na hora de interagir com as pessoas e negociar preços. Outro, quieto mas parceiro, topa qualquer parada, e firme nas suas posições na hora de tomar uma decisão.

A volta do Kheer Ganga

Na ida até o Kheer Ganga demoramos 4h. Confesso que a última hora de trilha foi difícil com a mochila pesada. Eu havia julgado a capacidade física do Chris, mas já na ida ele me surpreendeu puxando nosso bonde. Agregou muito. A volta é sempre só alegria, sempre, impressionante. Fizemos em 3 horas e pouco com o sorriso no rosto, parando para tirar foto e tudo mais. Foi ao chegar às primeiras casas da vila de Nakthan que fica no caminho, que um garotinho com menos de 10 anos surgiu do nada.

“Toca aqui?!”

Ele parou, e estendeu a mão para o Chris pedindo um cumprimento. Chris, alemão educado, foi humildemente apertar a mão dele, enquanto eu, ofegante e com mochila pesada nas costas, parei para assistir a cena. Foi aí que o moleque recuou a mão e deu aquele famoso “deixa que eu toco sozinho” no Chris e saiu correndo.

Ficamos ambos surpresos! Chris ficou tão vermelho quanto faz um bom trabalho no escritório, já eu, fui gargalhando alto até uma lanchonete no centro da vilinha de Kheer Ganga depois da cena que havia presenciado.

Na próxima vez que algum moleque vier me cumprimentar nessa viagem, eu que vou tirar onda.

Olhando para trás

Toda vez que eu encontrar o Chris por esse mundão, vou fazer questão de lembra-lo dessa história do “olé” épico. Mas nessa próxima vez, vamos rir juntos.

Tudo bem que essa foi uma situação irrelevante em nossas vidas e felizmente essa viagem foi 100% de acordo com o planejado. Mas refletindo agora, mesmo os maiores apertos, a gente consegue ver graça quando estão no passado.

Então fica o questionamento: por que se preocupar tanto se no final vai ficar tudo bem?

(vou voltar nessa questão depois)

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Não consegui uma foto do moleque para o Projeto Retratos já do mesmo jeito que ele surgiu, desapareceu. Mas tirei essa foto de Nakthan logo na sequência. (Lente 18-55mm Exposição: 1/4000s Diafragma: f/6.3 ISO 400)

O Cosmopolita

Sentado da areia

Saiu a nova escalação e o time já está em campo. Agora somos aqui nesse apartamento eu, o cara da Indonésia, dois gaúchos, um egípcio, e, um chinês no sofá da sala. As pessoas se reciclam. O técnico já avisou que vai mexer no time outra vez no mês que vem.

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Tenho vivido com atenção. As experiências são compartilhadas, o coração sente e a mente registra. Eu dou valor. É tão bonito de observar cada detalhe igual observar o mar se mexendo, sentado da areia. Apegos e expectativas exigem cautela. Cada pessoa segue seu rumo em direção à sua missão de vida assim como um rio desce a montanha em direção ao mar. O caminho é cheio de curvas, mas flui naturalmente. Cheio de encontros e desencontros, cheio de erros e acertos, cheio de oportunidades aproveitadas e desperdiçadas. A palavra “acaso” não está no meu dicionário. Sentado da areia eu observo atento… E abro um sorriso. As pessoas vêm e vão, a arte dos encontros, fica.

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“…eu observo atento… E abro um sorriso”

Exposição: 1/400s Diafragma: f/28 ISO 800 Horário: 18h30

O Cosmopolita

Como é trabalhar de noite na Índia

“Hey, night shift tomorrow, ok?!”

Foi o que meu superior me disse quando já estava saindo do trabalho naquela quinta às 21h. Ou seja, eu havia sido escalado para o turno noturno nos próximos dias úteis, já iria sacrificar a sexta a noite já que esse turno vai das 18h30 às 3h30 da madrugada. Isso acontece quando temos que aplicar pesquisas de mercado por telefone para os Estados Unidos e/ou países da América Latina devido a diferença de fuso-horário em relação à Índia.

Eu havia acabado de passar pelo treinamento da empresa, vim até a Índia a trabalho e já sabendo dessa flexibilidade entre turnos, concordei em estar disponível para ficar troncando logo na entrevista via Skype, confesso que estava curioso por essa experiência.

Indianos, alemães, nigerianos e chineses faziam parte daquele time da madrugada. Achei que teria dificuldades naquela sexta-feira pois não consegui dormir bem na noite anterior. Mas com um clima mais informal, muito trabalho a fazer e umas doses de chai tea, a princípio, tirei de letra.

O porque da minha curiosidade

Muitos vão se identificar com isso: sempre tive hábitos noturnos, assim como grande parte dos jovens, foram sempre frequentes as noitadas até 3-4h da manhã, saindo com os amigos ou em casa vendo filme. Depois que passei dos 23 anos, minha orientadora de vida e mãe me passou o mesmo feedback umas 3 vezes: “Filho, se você quisesse ser DJ ou arrumar algum outro trabalho noturno eu entenderia esse seu péssimo hábito”. Em todas as vezes, respondi: “Tá bom, mãe. Tá bom”. Ela deve ter achado que aquele conselho entrou por uma orelha e saiu pela outra, mas a verdade é que uma semente ficou plantada, sempre ouço com atenção as palavras daquela sábia mulher.

A sociedade B

Também lembro de certa vez que um querido amigo da república de estudante que morei durante a faculdade me mostrou essa matéria falando sobre a “Sociedade B” que seria o conjunto das pessoas mais produtivas durante a noite.

De acordo com a matéria, a disposição e o nível de produtividade das pessoas é algo genético. Foi escrito um livro chamado Internal Time: Chronotypes, Social Jet Lag, and Why You’re So Tired que fala de uma pesquisa feita na Alemanha que mapeou os ritmos circadianos (resumidamente, é o ciclo biológico pessoal de cada um) de 125 mil pessoas, concluindo que apenas 10% a 15% seriam pessoas da “sociedade A”, 15% a 25% seriam “sociedade B” e o grande vão no meio seriam as pessoas que conseguem se adaptar aos dois tipos de vida.

Algumas empresas na Europa já estão experimentando turnos noturnos para pessoas com perfil da sociedade B.

A experiência do Cosmopolita

No Brasil, sempre tive dificuldade com compromissos logo cedo no dia, eram frequentes as manhãs nos lugares onde trabalhei que me entupia de café. Topei o desafio. Aliás, eu vim para Índia exatamente para passar por situações diferentes, me testar, me conhecer melhor.

Entre idas e vindas, ao todo devo ter trabalhado no night shift pouco mais de 3 meses. No começo foi interessante, achei ter tirado de letra. Não ficava nem um pouco cansado durante o trabalho e até já estava pensando em elaborar uma resposta para aquela pergunta da minha mãe.

Até que o tempo foi passando e a rotina era a seguinte: voltar do trabalho cerca de 4h da manhã, não conseguir dormir até as 7h (isso acontecia com a maioria dos que trabalhavam comigo), matar esse tempo com filmes e livros, acordar lá pras 14h e até cozinhar meu almoço, almoçar, cozinhar a janta pra levar pro trabalho e lavar a louça, já era cerca de 16h30 e 17h30 eu já tinha estar me preparando pra ir trabalhar.

Ou seja, só sobrava 1h útil do dia pra mim (tudo bem que eu poderia ser mais determinado para fazer uma rotina mais rigorosa), eu morava com mais 4 pessoas e não via ninguém por causa dos horários, de vez em quando eu voltava pra casa correndo no intervalo da janta pra ver a galera (que só sobrava 20min), perdia a sexta e ganhava o domingo (que nem eu queria sair pra algum lugar).

Concluí que aquilo não era vida! Passei a odiar aquele turno!

A Índia e o turno noturno

Saindo 4h da manhã pra voltar pra casa, chega o elevador daquele prédio comercial e adivinhem só?! ELEVADOR LOTADO!!! Apesar de saber que o elevador ia estar cheio, eu sempre ficava espantado com aquilo! Cara, 4h da manhã!!!! Como assim?!?!

É aí que entra a questão que escrevi aqui das empresas que terceirizam trabalhos para os EUA ou trabalham com esse país direta/indiretamente. Como um dólar vale 70 rúpias indianas e as pessoas são mal pagas aqui, com certeza um serviço oferecido por uma empresa indiana é MUITO mais barato do que de uma americana.

Então, as empresas indianas acabam atendendo uma demanda global e como tem indiano pra c@r@|#0, gente pra topar trabalhar de madrugada, não falta.

O que O Cosmopolita concluiu sobre si mesmo

Já sei que não é nas primeiras horas do dia que eu rendo mais. Mas depois dessa experiência, não creio que eu seja da sociedade B, devo ser da AB, aquele vão que consegue se adaptar à qualquer horário.

Trabalhar fixamente nesse horário, não quero nunca mais. Concluí que o que eu preciso mesmo é desenvolver uma disciplina para ter uma rotina mais rigorosa.

De qualquer forma, a experiência foi super válida pra tirar essa dúvida. Vivendo e aprendendo.

E você, qual sociedade pertence?

O Cosmopolita

Ahmedabad: Onde se vive para trabalhar e onde se trabalha para viver

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Por do sol em Ahmedbaad. Detalhe na poluição no horizonte
Lente: 55-200mm Exposição: 1/2000s Diafragma: f/6.3 ISO: 800 Horário: 17h45

 

Com 3 milhões de pessoas, Ahmedabad, onde fui parar, é a 5ª maior cidade da Índia. Após seu desenvolvimento com a indústria têxtil, a maior parte da economia da cidade se deve ao setor secundário, indústrias de vários tipos. Apesar do setor terciário também ser forte, serviços de T.I., call center e outros serviços terceirizados.

De acordo com essa reportagem da Exame, foi feita uma previsão de que a Índia deve crescer 7% nos próximos anos e até 2030, as 5 maiores cidades da Índia devem alcançar um PIB equivalente à de um país de renda média hoje e, Ahmedabad, terá uma economia igual à do Vietnã, hoje.

Dry state

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Ahmedabad fica no estado de Gujarate, que é um dos 5 estados da Índia que são dry states, isso significa que a venda de bebidas alcoólicas é proibida.

Como assim?! Então não vende bebida????

Exatamente, meus caros. Mas o interessante é que percebi como o entretenimento depende de bebida alcoólica. Se não tem bebida, não tem bar, não tem balada. Ou seja, tem poucos lugares para as pessoas interagirem entre si. Onde os jovens acabam indo é lugares para fumar narguile (que também foram proibidos pouco antes desse Natal) e lugares que tocam/dão aula de… salsa! Haha… Acredite se quiser.

Então, as pessoas acabam vivendo muito em função do trabalho, sábado é considerado um working day e as condições de trabalho são péssimas.

As condições de trabalho

Como o custo de vida é barato, as pessoas costumam ganhar uma mixaria, e como tem indiano pra cara|#0, os colaboradores são descartáveis nas empresas, chega-se a ver pessoas qualificadas em empregos medíocres como engenheiros com mestrado trabalhando como analista de call center, acredite.

Como a Índia é caótica e desorganizada, não seria diferente no trabalho, as leis trabalhistas são poucas, pelo menos parecem não existir e muitos empregos são informais, não se paga hora extra (um dos maiores absurdos que tive que aceitar no trabalho) e se o colaborador não estiver de acordo, é descartado.

Além disso, também tem a questão da desigualdade social que apesar de eu ter acabado de conferir aqui que a Índia tem um melhor coeficiente Gini (indicador de desigualdade) do que o Brasil, a desigualdade social é bem escancarada, talvez pela questão das castas que pega até hoje (vou escrever sobre as castas no futuro).

O ponto que quero chegar é que muitas vezes os donos das empresas são orgulhosos demais e tratam os colaboradores com desrespeito, o que reflete nos gerentes e deixa o clima organizacional uma m£rd@ e acaba desmotivando os colaboradores.

Onde se vive para trabalhar e onde se trabalha para viver

Pois é, ganhando mixaria, trabalhando 6 dias/semana, hora extra sem receber, aceitando falta de respeito no trabalho e quase sem ter lazer, só falta chicotada nas costas. Brincadeiras a parte, não sei se nas outras cidades é desse jeito, mas Ahmedabad é onde se vive para trabalhar e onde se trabalha para viver, haja resiliência para O Cosmopolita, vou dar muito mais valor para os empregos no Brasil depois daqui!

Não é considerado anti-profissional na Índia

  1. Mulheres irem ao trabalho com roupa tradicional indiana
  2. Sentar com “perna-de-índio” na cadeira
  3. Ir pro trabalho com bindi na testa
  4. Arrotar
  5. Mascar tabaco durante o trabalho e não conseguir falar devido a saliva
  6. Ir de chinelo no dia informal (já que eles usam mais chinelo do que tênis)

A Índia sob um olhar empreendedor

Eu diria que pela Índia ter uma população GIGANTE, as demandas são maiores e fica mais fácil viabilizar um novo empreendimento. Vi vários lugares com serviço ruim dando certo, claro que um bom serviço fideliza clientes em qualquer lugar do mundo.

O Cosmopolita