A primeira vez que toquei um elefante

Era sábado de madrugada. Foi depois de uma daquelas festinhas na casa de alguém. A brincadeira foi leve mas foi longe naquele dia, chamamos um Uber para ir embora lá pras 4h da manhã (sim, tem Uber na Índia). A corrida até onde morava dava uns 20min. Eu, Monica e Diego fomos tagarelando em português durante aquela madrugada quieta enquanto nossa amiga do Botswana desistiu de interagir conosco.

Foi então, que surgiu no meio da rua, dois caras andando de elefante, foi a segunda vez que eu vi um elefante aqui na Índia (a primeira foi no meio do trânsito). Os outros dois brasileiros também não estavam acostumados com aquele animal, ficamos encantados, meti a cara para fora da janela e ficamos babando.

A conversa virou: “Nossa!”, “Caramba!”

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O motorista do Uber vendo aquela cena, parou o carro. Assim como os caras andando de elefante também pararam simultaneamente assim que viram a cara dos gringos desacreditados. Fomos logo tocar no elefante, um animal muito pacífico… E quentinho. Rs! Que momento inusitado!

Um contato rápido, tiramos umas fotos… Enquanto eles seguiam seu caminho pelas ruas de Ahmedabad, fiz esse registro. Ainda digerindo e comentando aquela experiência, encontramos mais 4 elefantes no cainho. Deviam estar levando eles para algum lugar. O porquê desse horário, ainda não descobri o motivo.

Foi ali que entendi porque os elefantes são tão queridos. Eles, realmente, além de chamarem a atenção por serem grandes e exóticos, passam uma energia boa.

Fomos todos dormir com essa cena na cabeça…

O Cosmopolita

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Essa sensação de liberdade

Era domingo em Ahmedabad. Estava em casa de bobeira. Acabou que no fim de tarde fui visitar uma mesquita que estava querendo conhecer no centro da cidade. Saí de casa naqueles dias com um brilho no olhar e o coração aberto. Cheguei na hora da oração das 18h.

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Mesquita Sidi Saiyyed durante a oração das 18h em Ahmedabad

Os indianos gostam muito de estrangeiros, acabada as orações, 3 caras ficaram curiosos e me abordaram. Depois de uma sessão de selfies, batemos um papo e acabou que fui andando com eles até uma lanchonete que fica à uns 3-4 quarteirões dali. Disseram que servia o chai tea mais tradicional da cidade, o lugar tinha 300 anos.

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Cheguei lá, era tipo um botecão caindo aos pedaços. Sem problemas, não julguei. Estava muito ocupado pensando em quantos chás já foram tomados naquele lugar, quantas situações já aconteceram ali… Porra, 300 anos? Mais antigo que muita cidade no Brasil.

Os 3 caras trabalham juntos na gerência de uma escola da cidade, que por sinal, me pareceu ter uma proposta interessante… E lá estava eu. Domingo a noite em um boteco tomando chá no centro da cidade em uma prosa saudável com 3 muçulmanos que havia acabado de conhecer. Eles fizeram questão de pagar a conta. Acabando o chá eles seguiram seu caminho e eu, o meu.

Uma breve despedida, e, na calçada, olho pro lado e vejo esse bode na calçada. Que cidade de 3 milhões de pessoas tem bode solto no centro da cidade?

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(essa foto ia entrar no post anterior mas deu um texto)

São coisas simples. Uma lanchonete velha, pessoas aleatórias, um bode… Grande coisa, né?! Mas como é gostosa a sensação de liberdade de se abrir para as experiências que cruzam seu caminho e simplesmente viver o presente.

O Cosmopolita

Gente como a gente

Foi pouco antes de eu tomar o banho mais quente da minha vida nas águas termais de Manikaran, ainda mais quente do que a de Kheer Ganga.

Estávamos e eu o Chris na vila de Manikaran na volta do Kheer Ganga, já depois da trilha. Cidade simpática na margem do Parvati River:

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Passamos em um templo, estava tendo um ritual de oferenda para Shiva, entrei na fila para ver qual era. Acabando o ritual, peguei uma família para me explicar um pouco do que se tratava. O pai arranhava no inglês e e sua mulher  e filha estavam tentando ajudar, me trataram com muita educação.

Acabou a conversa e saquei a câmera para tirar algumas fotos. Foi quando olhei para o lado e aquela família e todo o grupo que estavam naquele pequeno templo, estavam na escadaria tirando uma selfie com “pau de selfie”. Nos Himalaias, quem diria?! Que cena!

Foi quando acenei com a mão para todos eles darem um “tchau”. Rendeu essa foto:

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Até dei uma ampliada para ver melhor as expressões. Essa é daquele série fotos que eu me apeguei. OLHA ESSAS CARINHAS!!!!

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A garotinha sorridente no meio é a filha, o cara de boné preto, o pai e a mulher segurando o “pau de selfie” e roupa rosa formam a família 

Foi um gesto singelo.

Que abriu uma brecha para a gente conversar novamente depois que nos encontramos lá em cima. Depois de um bate-papo rápido, essa família simpática pediu para tirar várias fotos comigo e o Chris.

É nessa hora que os pré-conceitos são quebrados. Apesar do estereótipo de terrorista, barbudos usando turbantes. Olhando no olho, são gente como a gente, que conversam gentilmente, que retribuem sorrisos e claro, tiram selfies.

Não peguei as fotos que tiramos juntos, mas tenho essa de recordação, que fiquei mostrando empolgado para o Chris no ônibus durante aquela noite.

Vou guardar com carinho.

Essa foto no meu HD e esse momento na minha memória.

O Cosmopolita

Toda história tem graça quando é passado

Foi na volta do meu primeiro trekking na Índia. Estávamos descendo os Himalaias. Éramos apenas eu e o Chris, Chris e eu, alemão que trabalha comigo. Chris teve que me aturar durante 5 dias.

Melhor que Batman & Robin e Sherlock & Watson

Nunca tinha viajado com outro fotógrafo. Dois amantes da fotografia. Foi bom que dessa vez eu não fiquei para trás do grupo tirando fotos, já que meu grupo era só eu e outro fotógrafo.

Creio que nossas personalidades fizeram uma boa dupla. Um, pró-ativo, organizou a trip, mais comunicativo na hora de interagir com as pessoas e negociar preços. Outro, quieto mas parceiro, topa qualquer parada, e firme nas suas posições na hora de tomar uma decisão.

A volta do Kheer Ganga

Na ida até o Kheer Ganga demoramos 4h. Confesso que a última hora de trilha foi difícil com a mochila pesada. Eu havia julgado a capacidade física do Chris, mas já na ida ele me surpreendeu puxando nosso bonde. Agregou muito. A volta é sempre só alegria, sempre, impressionante. Fizemos em 3 horas e pouco com o sorriso no rosto, parando para tirar foto e tudo mais. Foi ao chegar às primeiras casas da vila de Nakthan que fica no caminho, que um garotinho com menos de 10 anos surgiu do nada.

“Toca aqui?!”

Ele parou, e estendeu a mão para o Chris pedindo um cumprimento. Chris, alemão educado, foi humildemente apertar a mão dele, enquanto eu, ofegante e com mochila pesada nas costas, parei para assistir a cena. Foi aí que o moleque recuou a mão e deu aquele famoso “deixa que eu toco sozinho” no Chris e saiu correndo.

Ficamos ambos surpresos! Chris ficou tão vermelho quanto faz um bom trabalho no escritório, já eu, fui gargalhando alto até uma lanchonete no centro da vilinha de Kheer Ganga depois da cena que havia presenciado.

Na próxima vez que algum moleque vier me cumprimentar nessa viagem, eu que vou tirar onda.

Olhando para trás

Toda vez que eu encontrar o Chris por esse mundão, vou fazer questão de lembra-lo dessa história do “olé” épico. Mas nessa próxima vez, vamos rir juntos.

Tudo bem que essa foi uma situação irrelevante em nossas vidas e felizmente essa viagem foi 100% de acordo com o planejado. Mas refletindo agora, mesmo os maiores apertos, a gente consegue ver graça quando estão no passado.

Então fica o questionamento: por que se preocupar tanto se no final vai ficar tudo bem?

(vou voltar nessa questão depois)

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Não consegui uma foto do moleque para o Projeto Retratos já do mesmo jeito que ele surgiu, desapareceu. Mas tirei essa foto de Nakthan logo na sequência. (Lente 18-55mm Exposição: 1/4000s Diafragma: f/6.3 ISO 400)

O Cosmopolita

Shalom!

Era 15min dentro e uns minutos fora. Não dava para ficar mais tempo que isso dentro daquelas águas termais à quase 4.000 metros de altitude na vila de Kheer Ganga nos Himalaias.

Foi nesses intervalos que um indiano me abordou dizendo: “SHALOM!” (cumprimento, judaico). Olhei para ele sem entender, demorou para cair a ficha enquanto do meu lado, um grupo de israelenses começou a gargalhar alto. Eram  desde ruivos à cara de árabe, tipo brasileiro, uma mistureba maluca.

Os israelenses tem que cumprir serviço militar obrigatório de 3 anos para os homens e 2 anos para as mulheres (isso mesmo, mulherada!). E depois desse dever cumprido, eles costumam mochilar pelo mundo e é fácil encontrá-los em grandes grupos de 5 à 10 pessoas.

Por algum motivo que eu ainda não sei, a região de Parvati Valley é um destino famoso entre os israelenses, grande parte dos restaurantes tem comida israelense no menu devido à essa demanda.

Por esse motivo, o indiano achou que eu era israelense. Essa foi a brecha para todo um papo naquela piscina até que 15min depois saí da piscina porque estava muito quente.

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Foto ilustrativa onde aconteceu essa situação. Piscina de água termal no topo da vila, Kheer Ganga ao fundo (foto de GoPro)

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Sentado da areia

Saiu a nova escalação e o time já está em campo. Agora somos aqui nesse apartamento eu, o cara da Indonésia, dois gaúchos, um egípcio, e, um chinês no sofá da sala. As pessoas se reciclam. O técnico já avisou que vai mexer no time outra vez no mês que vem.

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Tenho vivido com atenção. As experiências são compartilhadas, o coração sente e a mente registra. Eu dou valor. É tão bonito de observar cada detalhe igual observar o mar se mexendo, sentado da areia. Apegos e expectativas exigem cautela. Cada pessoa segue seu rumo em direção à sua missão de vida assim como um rio desce a montanha em direção ao mar. O caminho é cheio de curvas, mas flui naturalmente. Cheio de encontros e desencontros, cheio de erros e acertos, cheio de oportunidades aproveitadas e desperdiçadas. A palavra “acaso” não está no meu dicionário. Sentado da areia eu observo atento… E abro um sorriso. As pessoas vêm e vão, a arte dos encontros, fica.

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“…eu observo atento… E abro um sorriso”

Exposição: 1/400s Diafragma: f/28 ISO 800 Horário: 18h30

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Um novo rumo está por vir

Coisa de louco

Foi na minha primeira trip aqui na Índia. Foi em Diu, cidade litorânea colonizada pelos portugueses na época das grandes navegações. No final das contas, entre um grupo de 19 amigos estrangeiros, fiquei aleatoriamente no quarto de hotel com dois caras que trabalham comigo, são eles: Christopher da Alemanha e Luke da China.

No fim de tarde do primeiro dia nos reunimos espontaneamente na mesa do quarto de frente para sacada com vista pro mar em uma conversa descontraída. Ou seja, lá estava eu, com um alemão e um chinês em um hotel com nome em português no litoral da Índia. Coisa de louco. Beleza. Papo vai, papo vem, começamos a falar de política.

Duplipensando

Eu e Chris começamos a interrogar o Luke sobre como é viver em um país com limite de informação e muitas outras imposições. Veja bem, éramos 3 jovens com bagagens culturais diferentes mas o mais importante ali foi o respeito e a curiosidade. Luke contou como foi a era do Mao Tse Tung e chegou a fazer uma comparação com o Grande Irmão (Big Brother) de 1984 de George Orwell devido a algumas semelhanças, também explicou a forma como os chineses encaram a China sob o ponto de vista das 3 religiões mais praticadas por lá: budismo, taoísmo e o confucionismo (filosofias de Confúcio).

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Imagem de Mao Tse Tung em um estabelecimento comercial. Segundo Luke, antigamente era necessário fazer um tipo de reverência para essas imagens

Aproveitei para explicar brevemente a situação no Brasil, que é uma democracia recente, que houve uma politização da população brasileira depois dos “20 centavos” de 2013, expliquei a bipolarização PT x oposição que parece muito com Democratas x Republicanos nos EUA, expliquei também a falta de tolerância de ambas as partes, o discurso de ódio e terminei pegando um gancho no “dois minutos de ódio” de 1984, que apesar de eu ser do outro lado do globo, também li.

Chris escutou tudo atentamente e como vem de um país que passou por turbulências políticas maiores (como a crise pós primeira guerra, um governo fascista, divisão entre Alemanha ocidental e oriental), sabia do que eu estava falando.

Diplomacia com compaixão

Fim de papo, fomos procurar o resto do pessoal. Não foi a conferência dos BRICS em Goa, mas essa foi uma situação inusitadíssima e uma conversa enriquecedora. Se O Cosmopolita é aquele que se considera de todas as nações, o respeito e a curiosidade para entendê-las são muito importantes.

Apesar da atual falta de tolerância e discurso de ódio, sou otimista. Situações como essa me fazem sentir que quando o bastão for passado para nossa geração, as coisas serão diferentes. Se todos olharmos nos olhos das pessoas das outras nações para entendê-las, ver que são pessoas como nós, quebrar os pré-conceitos e caminharmos juntos, esse planeta tomará um novo rumo sentido à prosperidade.

“Nossa época dá a possibilidade da colaboração entre homens de diferentes países, num espírito fraterno e compreensivo. Antigamente os povos viviam sem se conhecerem mutuamente, tinham receio uns dos outros ou até mesmo odiavam-se reciprocamente. Que o sentimento de compreensão fraterna lance cada vez maiores raízes nos povos”

Carta de Einstein à seus alunos japoneses

O Cosmopolita